Trump isenta centenas de produtos brasileiros de tarifaço

Jorge Guimarães
O decreto oficializando o tarifaço contra o Brasil, assinado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta quarta-feira, 30, veio acompanhado de um anexo que traz um alívio parcial ao setor produtivo brasileiro. O documento inclui uma lista com quase 700 exceções, poupando diversas categorias de produtos da nova alíquota que entra em vigor no próximo dia 6 de agosto.
Alívio
Entre os setores que respiram aliviados estão o de suco de laranja e o siderúrgico de Minas Gerais, que vinham demonstrando forte apreensão nas últimas semanas. Ambos foram excluídos da cobrança da tarifa de 50%, o que reduz os impactos imediatos sobre a exportação desses produtos, importantes para a economia brasileira e, no caso de Minas, para a geração de empregos e a balança comercial estadual.
Assim, sendo, no setor siderúrgico mineiro, a notícia foi recebida com otimismo moderado.
— A dispensa da tarifa nos dá fôlego para manter contratos em andamento e evitar demissões. Minas Gerais é um polo estratégico da produção de aço no Brasil, e a manutenção das exportações para os EUA é essencial para o equilíbrio das nossas contas — avalia a diretora da Associação das Indústrias Siderúrgicas de Minas Gerais (AISMG), Fernanda Mendonça.
Frustração
A lista de exceções publicada junto ao decreto do presidente dos Estados Unidos trouxe surpresa e frustração para parte significativa do setor exportador. Embora segmentos como o de suco de laranja e a siderurgia mineira tenham sido poupados, produtos que ocupam o topo da pauta de exportações do Brasil, como carne, café e frutas, não foram incluídos nas exceções e serão atingidos pela medida.
Para o economista Lázaro Ribeiro, o resultado contrariou as expectativas de grande parte do mercado.
— Havia uma aposta forte de que a lista de exceções contemplaria produtos essenciais ao consumo americano, especialmente aqueles em que o Brasil é fornecedor quase exclusivo. No entanto, a exclusão de carnes, café e frutas da lista mostra que a decisão tem forte caráter político e menos racionalidade econômica — avalia.
Segundo ele, a sobretaxa nesses segmentos pode gerar impactos imediatos em cadeias produtivas importantes, com reflexos na balança comercial e até no nível de emprego em regiões altamente dependentes da exportação agroindustrial.
— O caso da carne é emblemático. Os Estados Unidos têm uma demanda crescente por proteína animal e o Brasil é um dos poucos países com escala para atender. Ao taxar esse produto, o governo americano pode elevar os preços ao consumidor local, mas ainda assim preferiu sinalizar rigidez comercial com o Brasil. O mesmo vale para o café e frutas, setores em que temos tradição, qualidade e forte presença no mercado externo — destaca o economista.
Ribeiro também aponta que a medida reforça a necessidade de o Brasil diversificar seus destinos comerciais.
— A concentração excessiva em mercados instáveis ou sujeitos a decisões unilaterais representa um risco. É hora de fortalecer acordos com outros blocos econômicos e buscar maior presença em mercados asiáticos e do Oriente Médio, por exemplo — disse.
Dólar
A decisão do presidente dos EUA pode ter efeitos que vão muito além das exportações. Segundo o economista Lázaro Ribeiro, a medida afeta diretamente a economia nacional e terá reflexos perceptíveis no dia a dia da população, mesmo entre aqueles que não atuam no comércio exterior.
— A primeira consequência prática de uma redução nas exportações para os Estados Unidos é a entrada menor de dólares no Brasil. Isso pressiona a taxa de câmbio, já que, com menos moeda americana circulando no país, o real tende a se desvalorizar — explica o economista.
Lázaro destaca que a valorização do dólar tem efeito cascata em vários setores.
— Produtos importados ficam mais caros, o que pode afetar desde eletrônicos e combustíveis até medicamentos e insumos industriais. Além disso, há impacto sobre os preços de alimentos, combustíveis e tarifas, pois muitos custos estão atrelados ao dólar — analisa.
Ele também alerta que a oscilação cambial pode gerar insegurança no mercado financeiro, encarecendo investimentos e elevando os custos de produção.
— Quando o dólar sobe, o Brasil se torna mais caro para importar e mais arriscado para quem investe. Isso desacelera a economia e atinge toda a sociedade, com aumento de preços é possível retração do consumo —pontua.
A tarifa, que entra em vigor no dia 6 de agosto, próxima quarta-feira, representa um risco não apenas para setores produtivos diretamente atingidos, mas para o equilíbrio macroeconômico do país. Para Lázaro, o momento exige atenção redobrada das autoridades brasileiras.
— O governo precisa agir com rapidez, fortalecendo acordos comerciais e buscando novas parcerias internacionais. Além disso, é fundamental manter estabilidade interna para evitar que os impactos da medida americana se agravem com fatores domésticos, como juros altos e inflação persistente — define.
Mercado
Embora os impactos do tarifaço sejam, em grande parte, negativos, o economista aponta que alguns efeitos colaterais podem beneficiar o consumidor brasileiro, especialmente no setor alimentício. Um dos exemplos é a possível queda no preço da carne bovina no mercado interno.
— Se a exportação de carne para os Estados Unidos for reduzida por conta da tarifa de 50%, é natural que esse excedente seja redirecionado ao mercado interno. Com maior oferta, a tendência é de redução nos preços, beneficiando o consumidor brasileiro — analisa.
O economista ressalta que, embora o setor produtivo veja essa mudança com preocupação, principalmente pela perda de receitas e contratos internacionais, o cenário pode gerar um alívio temporário para o bolso da população, especialmente em um contexto de inflação ainda elevada nos alimentos.
— Essa dinâmica de mercado segue a lógica da oferta e demanda. Menos carne saindo do país significa mais carne disponível nos açougues e supermercados, o que pode forçar os preços para baixo. O mesmo pode ocorrer com frutas e outros produtos afetados pela nova política tarifária — explica.
No entanto, Lázaro alerta que esse efeito pode ser passageiro.
— Caso a desvalorização do real se intensifique, o custo de produção tende a subir, já que muitos insumos são dolarizados. Isso pode anular, em parte, o benefício de preços mais baixos no varejo — diz.
Apesar dos possíveis efeitos positivos no curto prazo para o consumidor final, o economista reforça a necessidade de o Brasil diversificar seus mercados de exportação e fortalecer sua presença em novos blocos econômicos.
— O ideal é que o país não dependa tanto de um único destino comercial. Isso daria mais estabilidade à nossa economia e evitaria oscilações tão bruscas como as que estamos vendo agora — conclui.
Fiemg
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) manifestou preocupação com o decreto publicado nesta quarta-feira pelo governo dos Estados Unidos. Embora o decreto preveja a isenção para 694 produtos totais (de acordo com a classificação norte americana HTSUS), o que equivale a 43% do valor exportado pelo Brasil (US$ 17,3 bilhões), alguns dos setores estratégicos para a economia nacional e para Minas Gerais seguem penalizados.
O órgão que representa os emresários ressalta que, embora itens como petróleo, produtos da metalurgia, aeronaves e equipamentos industriais tenham sido preservados da nova tributação, é fundamental que o governo brasileiro adote medidas diplomáticas urgentes para mitigar os efeitos negativos sobre os setores excluídos da isenção.
Afirmar seguir acompanhando com atenção os desdobramentos da medida e seus impactos sobre a indústria mineira. Reforça ainda a necessidade de uma atuação firme do governo federal para negociar com as autoridades norte-americanas um acordo que contemple todos os setores industriais brasileiros exportadores não incluídos entre as exceções, que poderão ser duramente impactados com uma tarifação total que chega a 50%.
Medidas imediatas
Sobre a linha de crédito do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), a pedido do governador Romeu Zema e do vice-governador Mateus Simões (Novo), a instituição está estruturando os detalhes, mas já antecipou que haverá condições especiais de taxa fixa 0,9% ao mês, além de prazo de 60 meses para pagar, sendo 12 meses de carência. As demais condições estão em fase final de formatação para que a linha comece a ser operada nas próximas semanas.
— Estamos estruturando a linha para atender os setores e as empresas mais afetadas. Nossas equipes estão trabalhando no sentido de identificar esses setores para apoiar de forma imediata — afirmou o presidente do BDMG, Gabriel Viégas Neto.
Já em relação a estoques de créditos, o secretário de Fazenda, Luiz Cláudio Gomes, explicou que acompanha a situação e que ela pode ser revista.
— Esses R$ 100 milhões relativos a estoques de crédito de exportação que vamos monetizar é uma medida inicial e emergencial para trazer um alívio aos setores que possivelmente irão enfrentar dificuldades. Acredito que essa decisão do presidente Trump ainda pode ser resolvida bilateralmente — observou.
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