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Realidades paralelas

Realidades paralelas

O Brasil, definitivamente, é um país de realidades paralelas. De um lado, em Brasília, os três poderes travam uma guerra de vaidades, disputando influência e autoridade em um embate que pouco — ou nada — se conecta com as urgências da população. De outro, nas redes sociais, o assunto que viraliza, que ganha memes, reels e manchetes, é o morango do amor— uma iguaria transformada em fenômeno cultural momentâneo. Enquanto isso, silenciosamente, aproxima-se um tarifaço que promete abalar o bolso dos brasileiros com impactos concretos, duros e profundos.

A contradição é gritante, mas tristemente familiar. O brasileiro, cada vez mais descrente na política e nos políticos, se refugia na banalidade. E o faz, muitas vezes, por exaustão. A sucessão de escândalos, promessas não cumpridas e crises institucionais o afastou da discussão pública. Assim, prefere rir do absurdo a enfrentá-lo. Mas há um custo alto nessa escolha.

Quando o debate nacional se reduz a distrações passageiras e o senso crítico dá lugar ao cinismo, os verdadeiros problemas avançam sem resistência. O aumento de tarifas, a precarização dos serviços públicos, a insegurança nas ruas, o desemprego, a crise na saúde — tudo isso continua acontecendo, mas sem o olhar vigilante da sociedade. Os políticos, por sua vez, agradecem. Afinal, quanto menor a cobrança, mais liberdade para agir sem prestar contas. O que os deputados e senadores têm feito para minimizar o impacto do tarifaço? Além, claro, dos discursos nas redes sociais defendendo X ou Y? 

É claro que o humor é parte da cultura brasileira, e rir é, muitas vezes, uma forma de resistência. Mas não pode ser a única. Enquanto o foco estiver nos morangos do amor e não nos desmandos do poder, seguimos presos nesse ciclo de alienação e descaso. Acordar desse transe coletivo é urgente. Porque o tarifaço vai chegar, e não haverá meme capaz de aliviar o peso da conta.

Precisamos de representantes sérios e, mais do que isso, uma população capaz de cobrar com responsabilidade, sem cair das guerras de narrativas de direita e esquerda. Afinal, os problemas não têm lado e atingem todos igualmente, independente de lado partidário. É preciso coragem para enfrentar os problemas que assolam o país, sem se perder nas distrações das redes sociais.

Se cobramos tanto dos políticos, também precisamos cobrar que os cidadãos ajam, de fato, como eleitores. Exercer a cidadania é um dever contínuo, que exige capacidade de dialogar com todos os lados, deixando de lado diferenças da esfera ideológica. Se muitas lideranças agem como bem entender, defendendo apenas seus próprios interesses, é preciso estender parte da responsabilidade para aqueles que o elegeram. Ninguém é eleito sem voto. Se está ali, é porque pessoas confiaram seu voto a ele, e precisam cobrar. Caso contrário, o país seguirá sem rumo, cada um puxando a corda para seu lado, numa luta invisível contra fantasmas imaginários.

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