Com 90% das exportações destinadas aos EUA, siderúrgicas já começam a paralisar produção

Lucas Maciel
A taxação de 50% sobre produtos brasileiros, imposta pelos Estados Unidos, começará oficialmente a valer no dia 6 de agosto. A confirmação foi feita pelo presidente Donald Trump nesta quarta-feira, 30, com a assinatura do decreto. A medida, que havia sido anunciada no início do mês, não será adiada, apesar das tentativas do governo brasileiro e outros políticos, de negociar com a Casa Branca.
A decisão amplia a tensão comercial entre os dois países e já causa efeitos práticos na economia brasileira. Em Minas Gerais, setores que têm forte vocação exportadora começaram a sentir os primeiros impactos, mesmo antes da medida entrar em vigor. A apreensão é grande, especialmente entre empresários e trabalhadores de segmentos que dependem do mercado norte-americano para escoar sua produção.
Entre os mais afetados está o setor de ferro-gusa, uma das bases da indústria siderúrgica do Estado. Com a queda brusca nos pedidos vindos dos Estados Unidos, que absorvem a maior parte da produção mineira, algumas usinas já começaram a interromper operações e conceder férias coletivas a seus funcionários. A expectativa de novos prejuízos é alta, e a cadeia produtiva — que envolve também fornecedores de carvão e transporte — pode ser diretamente atingida.
Na região, onde também há concentração de siderúrgicas, o impacto é ainda mais visível. Em Divinópolis, importante polo da produção de ferro-gusa, o momento é de incerteza. Empresas locais já enfrentam dificuldades para manter o ritmo de produção e monitoram de perto o desdobramento da crise.
Entenda
O tarifaço, imposto pelos Estados Unidos, foi anunciado no dia 9 de julho e representa um aumento de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados para o país. A medida faz parte da política comercial do presidente Donald Trump, que retomou a estratégia de proteger o mercado norte-americano por meio de barreiras tarifárias.
O Brasil foi um dos principais alvos dessa nova rodada de taxações, o que gerou forte reação do setor produtivo e do governo federal. Desde então, autoridades brasileiras têm tentado articular uma negociação com a Casa Branca, inclusive com apoio de representantes do Congresso Nacional. No entanto, até o momento, nenhuma reunião efetiva ocorreu entre os dois governos, e não há sinalização de recuo por parte dos Estados Unidos.
Trump confirmou, na manhã da última quarta-feira, 30, que a taxação entrará em vigor já no próximo dia 6, sem possibilidade de prorrogação, e foi o que fez na tarde desta quarta-feira.
— Ele está forte e não será estendido. Um grande dia para a América — escreveu o presidente.
Impactos
Mesmo antes de a medida entrar oficialmente em vigor, os reflexos do tarifaço já provocam reações em série nas usinas mineiras. Pelo menos cinco empresas produtoras de ferro-gusa no Estado já interromperam ou anunciaram paralisações na produção.
A principal justificativa é o cancelamento repentino de pedidos por parte de compradores norte-americanos, que temem os custos adicionais com a tarifa de 50%.
Minas Gerais conta atualmente com cerca de 50 usinas de ferro-gusa em operação, que juntas empregam aproximadamente 10 mil pessoas de forma direta. Uma destas, localizada em Matozinhos, na região metropolitana de Belo Horizonte, a situação já exigiu a concessão de férias coletivas para 120 dos 144 funcionários. A medida começou a valer na última segunda-feira, 28, com previsão inicial de 15 dias, podendo ser prorrogada.
Já em Sete Lagoas, uma empresa também anunciou a paralisação das atividades. O alto-forno da planta foi desligado nesta quarta-feira, 30, e ainda não há previsão de retorno. Além disso,uma outra siderúrgica também de Sete Lagoas ainda não paralisou totalmente as operações, mas monitora o cenário com cautela.
Alerta
Com quase 90% das exportações do setor destinadas exclusivamente aos Estados Unidos, a indústria siderúrgica de Minas Gerais vive um momento de apreensão e mobilização. O dado, revelado pelo presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico do Estado (Sindifer), Fausto Varela, escancara a alta dependência de cidades — como Divinópolis, Pará de Minas e Sete Lagoas — do mercado norte-americano.
Ainda de acordo com o sindicato, após a confirmação da taxação de 50% anunciada pelos EUA, o Sindifer passou a se reunir com empresários e autoridades para discutir os impactos e buscar formas de reação.
— Uma taxação de 50% inviabiliza negócios e perdemos competitividade. Não existe forma a curto prazo de redirecionamento, precisamos dialogar com os Estados Unidos — destacou Varela.
Além das siderúrgicas, toda a cadeia produtiva corre risco de ser afetada, incluindo fornecedores de carvão vegetal, energia e transporte. A avaliação do sindicato é de que a medida não tem caráter apenas de proteção comercial, mas sim de punição.
— Pedimos pela continuidade de negociação e interlocução nos próximos dias — finalizou.
Empresas
Com a taxação prestes a entrar em vigor, cresce a expectativa sobre os efeitos diretos nas indústrias do Centro-Oeste mineiro, especialmente em cidades como Divinópolis, que abriga uma cadeia produtiva fortemente ligada à exportação de ferro-gusa e produtos derivados.
O Agora entrou em contato com siderúrgicas da região para apurar os reflexos imediatos.
A Siderúrgica Valinhos, uma das principais do setor em Divinópolis, foi procurada pelo Agora, mas não respondeu até o fechamento desta matéria, às 12h30 de terça-feira, 29. Já a Gerdau informou que não será diretamente impactada.
— A Gerdau tem operações locais nos EUA, que abastecem o mercado norte-americano. A empresa não exporta aço do Brasil para lá — esclareceu.
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