“Divinópolis será afetada, mas de forma parcial”, avalia economista sobre início do tarifaço

Lucas Maciel
O chamado “tarifaço” entra em vigor nesta quarta-feira, 6, e marca uma nova etapa na relação comercial entre Brasil e Estados Unidos. A medida, oficializada pelo presidente norte-americano Donald Trump, impõe uma taxação de 50% sobre produtos brasileiros e já provoca apreensão em setores estratégicos da economia nacional. A decisão afeta diretamente indústrias siderúrgicas e o agronegócio, além de gerar preocupação com os reflexos sobre emprego e renda em regiões exportadoras.
Apesar do impacto negativo esperado, o decreto veio acompanhado de um alívio parcial para parte do setor produtivo. Uma lista de quase 700 produtos foi isenta da tarifa, o que representa cerca de 43% do valor exportado pelo Brasil para os EUA. Entre os itens preservados, estão o suco de laranja e o ferro-gusa, fundamentais para a economia mineira. Ainda assim, carne, café e frutas seguem na lista de produtos tarifados, o que deve reduzir a competitividade brasileira e pode gerar cancelamento de contratos.
Para compreender melhor os impactos do tarifaço, o Agora ouviu um especialista e um empresário, que analisaram o momento de incerteza vivido pelo setor e os possíveis reflexos para a economia de cidades, como Divinópolis.
Entenda
O chamado ‘tarifaço’ foi oficializado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e prevê taxação de 50% sobre produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano. O decreto, assinado em 30 de julho, entra em vigor nesta quarta-feira, 6, e faz parte da política comercial adotada por Trump para proteger a economia interna por meio de barreiras tarifárias.
O Brasil está entre os principais alvos da medida, que já provoca impactos antes mesmo de começar a valer. A decisão atinge em cheio setores com forte dependência do mercado americano, como o agronegócio e a indústria siderúrgica, além de afetar a cadeia produtiva em diversos estados brasileiros.
Produtos retirados
O decreto trouxe um alívio parcial ao setor produtivo brasileiro ao incluir uma lista de quase 700 produtos isentos da tarifa de 50%, o que representa aproximadamente 43% do valor exportado pelo país para os Estados Unidos, segundo dados da classificação americana HTSUS. Entre os itens preservados, destacam-se o suco de laranja e o ferro-gusa, ambos estratégicos para a economia mineira.
Apesar dessa lista de exceções, setores importantes do agronegócio e da indústria seguem preocupados. Carne, café e frutas não foram incluídos na isenção e devem sofrer com a perda de competitividade, risco de cancelamento de contratos e retração nas exportações. Para especialistas, a decisão de Trump mostra caráter político e sinaliza que a relação comercial com o Brasil continuará instável, mantendo empresários em estado de alerta.
Mercado
Mesmo com o fôlego temporário dado por essa exclusão de alguns produtos, o clima entre os produtores da região Centro-Oeste de Minas é de apreensão.
O ferro-gusa é a base da indústria siderúrgica mineira e responde por boa parte das exportações do estado. Mais de 50% da produção local tem como destino os Estados Unidos, e, em algumas empresas, a dependência do mercado norte-americano chega a 90%. Essa concentração torna o setor especialmente vulnerável a medidas tarifárias.
O presidente do Sindicato das Indústrias Siderúrgicas do Oeste Minas (Sindigusa), Ronan Eustáquio Júnior, resumiu o momento vivido pelo setor.
— O mercado vive uma incerteza muito grande — afirmou.
O alerta do Sindigusa se justifica pelo histórico recente. Quando Donald Trump aplicou uma tarifa de 10% sobre o ferro-gusa, em abril, o preço do produto caiu cerca de US$ 50 por tonelada, gerando perdas imediatas e obrigando empresas a rever contratos e reduzir o ritmo de produção. Segundo o sindicato, o impacto de uma tarifa de 50% seria muito maior, podendo resultar em paralisações mais longas.
Além da produção direta, toda a cadeia do ferro-gusa é afetada por qualquer oscilação no comércio exterior. Empresas fornecedoras de carvão vegetal, energia e transporte dependem do funcionamento pleno das siderúrgicas e sentem imediatamente os reflexos de paralisações ou cancelamentos de exportações.
Para o Sindigusa, embora o alívio momentâneo com a isenção traga algum respiro, qualquer mudança na lista de exceções teria efeito devastador para a economia regional. Com a retirada do produto do ‘tarifaço’, as tarifas voltam para os 10% já cobrados desde abril.
Especialista
Ao Agora, o Economista e diretor financeiro, Leandro Maia destacou que o tarifaço imposto pelos Estados Unidos afetará a economia de Divinópolis, mas de forma parcial. Segundo ele, embora a produção de ferro-gusa e seus derivados seja uma parte importante da indústria local, a economia municipal tem no setor de serviços seu principal pilar, o que ajuda a amenizar os impactos negativos da medida americana.
Maia, no entanto, chama atenção para os impactos que a redução das exportações pode causar na economia de Divinópolis. Ele aponta que a diminuição da produção e do volume exportado pode gerar um ciclo vicioso que atinge diretamente o mercado interno.
— A falta de exportação das empresas de Divinópolis pode afetar a economia local, gerando um ciclo vicioso, já que ao diminuir o emprego, diminui a renda, o que afeta o consumo das pessoas e todo o mercado local — comentou.
Segundo pesquisas recentes, a China tem se consolidado como o principal parceiro comercial do Brasil, superando os Estados Unidos em valor total de exportações. Em 2025, o país asiático respondeu por 28% do total exportado pelo Brasil, enquanto os EUA ficaram em segundo lugar, com 12,07%.
Neste contexto, Leandro Maia reforça que a dependência direta de Divinópolis em relação ao mercado norte-americano é limitada, já que o foco das exportações locais segue alinhado ao mercado chinês.
— A gente tem como principal destino das nossas exportações a China. Os Estados Unidos não são o nosso principal destino para as nossas forças, mas, com certeza, sim, iremos ser afetados — afirmou.
Por fim, o economista reforçou que a diversificação econômica de Divinópolis atua como um amortecedor diante do tarifaço.
— Então, vai ser afetado, mas de forma parcial — finalizou.
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