Campanha da Fraternidade 2026 é lançada com foco na moradia digna

Lucas Maciel
O direito à moradia digna ganhou centralidade nas reflexões da Igreja Católica neste início de Quaresma, período tradicionalmente dedicado à oração, ao jejum e à caridade. Em sintonia com esse tempo litúrgico, a Diocese de Divinópolis lançou oficialmente, na manhã da Quarta-feira de Cinzas, 18, a Campanha da Fraternidade (CF) 2026 em âmbito diocesano.
A iniciativa, que neste ano traz o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), propõe não apenas uma reflexão espiritual, mas também um chamado concreto diante de um dos problemas sociais mais urgentes do país: o déficit habitacional.
Durante coletiva de imprensa, o bispo diocesano, Dom Geovane Luís da Silva, e o padre Henrique Teodoro, assessor do Setor de Campanhas, apresentaram os principais eixos da proposta. Eles destacaram que a moradia é porta de entrada para outros direitos fundamentais, como saúde, educação e segurança, e que a ausência de uma casa adequada compromete a dignidade humana em sua dimensão mais básica.
A coletiva foi aberta com a exibição de um vídeo produzido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunindo dados sobre a realidade habitacional no país.
Atualmente, 6,2 milhões de famílias não possuem moradia adequada e 328 mil pessoas vivem em situação de rua. Para a Igreja, esses números evidenciam não apenas uma estatística preocupante, mas a urgência de mobilização social e compromisso efetivo.
Desafio histórico
Criada há mais de seis décadas, a Campanha da Fraternidade consolidou-se como uma das principais iniciativas evangelizadoras e sociais da Igreja no Brasil. Realizada anualmente durante a Quaresma, a campanha busca unir espiritualidade e ação concreta em favor dos mais vulneráveis, promovendo reflexão comunitária e engajamento social.
Em 2026, os bispos acolheram sugestão da Pastoral da Moradia e Favelas e decidiram retomar a temática da habitação. Dom Geovane recordou que, embora o direito à moradia esteja garantido na Constituição, milhões de brasileiros ainda vivem sem casa ou em condições inadequadas.
— Enquanto estive em Barbacena, tive a oportunidade de ter contato diretamente com essa população — afirmou o bispo durante a coletiva.
Esta não é a primeira vez que a Campanha da Fraternidade aborda o assunto. Em 1993, o tema “Moradia”, com o lema “Onde moras?” (Jo 1,39), já havia denunciado a desigualdade urbana, a especulação imobiliária, a má distribuição do solo e o crescimento de ocupações em áreas de risco.
Lançamento nacional
O lançamento oficial da Campanha da Fraternidade 2026 ocorreu também na Quarta-feira de Cinzas, na sede da CNBB, em Brasília. A programação incluiu celebração da Santa Missa na Capela Nossa Senhora Aparecida, presidida pelo secretário-geral da CNBB, dom Ricardo Hoepers, além de cerimônia no Auditório Dom Helder Câmara, com a apresentação do hino oficial da campanha.
Mensagem do Papa
Durante o evento, foi lida a mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma. No texto, o Pontífice destacou a tradição de mais de 60 anos da Campanha da Fraternidade como expressão concreta da fé da Igreja no Brasil, especialmente no compromisso com os pobres.
O Papa recordou que “existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres” e reforçou a necessidade de enfrentar as causas estruturais da pobreza. Em referência a um sermão de Santo Agostinho, afirmou que a Quaresma é tempo de conversão autêntica, marcada pelo jejum, oração e caridade.
— O Espírito Santo, autor da nossa santificação, nos conduza ao longo deste caminho — afirmou.
Dom Ricardo Hoepers também ressaltou que a Campanha da Fraternidade propõe conversão pessoal, comunitária e social.
— Não podemos naturalizar que alguém viva sem teto e aceitar que crianças cresçam em áreas de risco — declarou.
Ele também enfatizou que a moradia não pode ser tratada como privilégio, mas como condição básica para o exercício de outros direitos.
Fundo Solidário
Em Divinópolis, padre Henrique Teodoro destacou que a campanha não se limita à reflexão teórica. A partir do dia 23 de fevereiro, estará disponível no site da Diocese o edital para projetos que desejam receber recursos do Fundo Diocesano de Solidariedade.
A tradicional Coleta da Solidariedade ocorrerá no Domingo de Ramos. Os recursos arrecadados serão destinados aos Fundos Diocesano e Nacional de Solidariedade, que apoiam iniciativas sociais em diversas regiões do país.
Durante o lançamento nacional, o secretário-executivo de Campanhas da CNBB, padre Jean Poul, apresentou cinco propostas práticas: assumir a campanha nas comunidades; intensificar a oração pelos que sofrem com a falta de moradia; praticar o jejum como gesto concreto de solidariedade; fortalecer a ação sociopolítica; e participar da coleta.
Experiências como o projeto “Moradias Acompanhadas”, desenvolvido pela Comunidade da Trindade, em Salvador (BA), também foram apresentadas. A iniciativa oferece não apenas uma casa, mas acompanhamento integral a pessoas que viveram em situação de rua, incluindo apoio na saúde, geração de renda e reconstrução de vínculos familiares.
Mobilização local
Com o lançamento da Campanha da Fraternidade 2026, a Igreja reafirma o compromisso de mobilizar paróquias e comunidades para que a reflexão quaresmal ultrapasse o campo teórico e se traduza em ações concretas.
A proposta é que a discussão sobre moradia vá além dos limites eclesiais e alcance também o poder público e a sociedade civil. Para a Campanha deste ano, promover moradia digna é promover dignidade, justiça e fraternidade — pilares que a Quaresma convida a fortalecer.
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