Carta para Rui Barbosa

João Carlos Ramos
Excelentíssimo Senhor Dr. Rui Barbosa de Oliveira
Saudações!
Sinto-me pequeno, diante do mar de cultura jurídica, no qual o senhor navega e espanta a todos da sociedade brasileira do século XIX e obviamente dos séculos posteriores. Permita-me apresentar:
Meu nome é João Carlos Ramos e resido em Divinópolis/MG. Nosso município se tornou mundialmente famoso, em parte por causa da atuação de nossa estrela maior, que é a escritora Adélia Prado.
Sei que dois séculos nos separam, mas quero entrar na estranha seara do rapto de Pórcia. Sim! Pórcia, a tia de seu ilustre colega de faculdade do curso de Direito, Castro Alves. Pórcia, era uma jovem criatura de singeleza tão rara, que parecia nascida das brumas, do silêncio e da aurora. Era tida por muitos, não uma mulher, mas uma rosa gigante, pois sua beleza estonteante, tornava a todos, escravos de seu olhar. Seu recato, a tornava presença luminosa entre as sombras do mundo. Porém, o destino, mestre dos espíritos de todas as gerações, chamou a atenção de Leolino, homem casado de família ilustre. A atração fatal o levou a cometer o ato impensável de raptá-la em uma noite sem lua. Ela também, como folha seca, foi levada pelo vento da paixão proibida...
O senhor, como ilustre homem jurídico e contemporâneo deles, frutos da famosa Bahia, saberá comentar o fato, com riquezas de detalhes. Muitos condenaram Leolino e sua fama de cruel, chegou até nossos dias, no século XXI.
Hoje em nossa sociedade, seria um ato absolutamente normal, pois a liberdade brasileira, chegou ao ápice, algo sonhado por vossa senhoria (não é, mesmo ?). Na época do acontecido, parecia que Prometeu acorrentado era apenas um brinquedo de criança, Dr. Rui!... Qual foi sua opinião, publicada nos jornais da época? Ou como era próprio de sua personalidade, a ocultaste nas selvas de sua bondade, visto seres um homem que advoga apenas com o coração, cônscio das vidraças de vidros que todos se esquecem que também possuem. Estou louco para saber a sua augusta e reverenciada opinião! Afinal, o grande "Poeta dos escravos", Castro Alves, foi seu colega de faculdade e o senhor, jamais iria manchar a reputação de sua tia, ó Ilustre "Águia de Haia"! Sei que, no campo da oratória, jamais surgiu um brasileiro semelhante a Vossa Senhoria! Jurista e diplomata de mérito.Tu jamais irias julgar pela aparência e nem pelas emoções. Aqui entre nós, Rui, dificilmente um homem, na pele de Leolino, permaneceria inerte, diante da tempestade de amor, emanada dos olhos da bela Pórcia. A fraqueza é frequente, naqueles homens que se dizem fortes. Vossa excelência, possui a fama de fustigar as sombras da hipocrisia e fazer tremer as consciências, visando uma visão de justiça e paz duradoura. Como poeta que sou, deixei aflorar o clima de romance épico e revolucionário, com a finalidade de escrever sobre as paixões humanas e suas consequências. Não sou juiz de nada, apenas observador, colhendo as flores com extremo cuidado… Entre um homem e uma mulher, existe apenas um fio de navalha, que os separam das grandes paixões possíveis. Nossas atitudes, ilustre doutor, são apenas exemplos para a posteridade, em minha humilde opinião! O senhor, o que diz ? Castro Alves, utilizou desse material para construir um castelo de sonhos em seu poetizar. Escreveu lindíssimos poemas sobre amores possíveis e impossíveis. O grande mestre do sonho, certamente era digno de seus elogios na tribuna, como atestam pesquisas históricas. Termino esta carta, com o interesse inicial de ouvir a palavra que corre como rio perene de seus lábios de mestre de gerações!
Escrevo esta carta, em uma madrugada fria, sacrificando meu sono, por uma causa nobre. A esperança em seu verbo polido me fez desafiar a dúvida e tomar tal atitude.
Termino esta carta, com a certeza de obter a sensata resposta ao meu anseio. Muito obrigado! Paz e bem!
Jocarramos@gmail.com
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