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Política

Confiança abalada

Confiança abalada

A confiança nas instituições é um dos pilares da democracia. Quando ela se desgasta, o problema não é apenas institucional — é social. E os números recentes sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) acendem um alerta importante. Levantamento do Datafolha aponta que a desconfiança em relação à Corte atingiu o maior nível da série histórica. Outra pesquisa, divulgada pela Quaest, mostra um país dividido: 49% dos brasileiros afirmam não confiar no STF, enquanto 43% dizem confiar. Outros 8% não souberam ou preferiram não responder. Não é um dado trivial. O Supremo é o guardião da Constituição, o árbitro final dos conflitos institucionais e o último recurso para a proteção de direitos fundamentais. Quando metade da população manifesta desconfiança, algo precisa ser debatido com seriedade. Parte dessa erosão de confiança passa, inevitavelmente, pelo ambiente político que cerca decisões judiciais. Nos bastidores de Brasília, políticos do chamado centrão passaram a se mobilizar para tentar a libertação do banqueiro Daniel Vorcaro na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal. A preocupação nos corredores do poder é clara. O avanço das investigações pode levar Vorcaro a optar por uma delação premiada. 

Relação perigosa

O episódio também reacende um debate delicado: a relação entre ministros de tribunais superiores e empresários. Casos recentes envolvendo o chamado “caso Master” colocaram esse tema novamente sob os holofotes, alimentando questionamentos sobre proximidade excessiva entre poder econômico e poder institucional. É importante deixar claro: instituições são fundamentais e precisam ser preservadas. Sem um Judiciário forte e independente, não há democracia sólida. Mas também é preciso reconhecer uma verdade simples — instituições são formadas por pessoas, e pessoas são passíveis de erros. Quando surgem suspeitas ou comportamentos inadequados, a resposta não pode ser corporativismo ou silêncio. Pelo contrário: é preciso coragem para separar o joio do trigo, retirar as “laranjas podres” do cesto e preservar aquilo que realmente importa — a credibilidade institucional. 

Decadência ética 

Ao mesmo tempo que a “merda é jogada no ventilador”, o caso também expõe outro fenômeno recorrente da política brasileira: o medo de quem pode ser citado. Sempre que uma investigação avança ou a possibilidade de delação aparece no horizonte, cresce a tensão em determinados círculos de poder. Não por acaso. Se confirmadas irregularidades, estaríamos diante de mais um capítulo da decadência ética que, há décadas, compromete parte da política nacional. E o efeito colateral é sempre o mesmo: a generalização. Aqueles poucos que trabalham com seriedade acabam sendo colocados no mesmo balaio dos que transformam a política em instrumento de interesses pessoais.

Isolado

Enquanto Brasília vive seus sobressaltos institucionais, Minas Gerais também observa um rearranjo importante no campo político. Uma pesquisa interna do Partido Liberal indica que a influência eleitoral do governador Romeu Zema (Novo) pode ser menor do que se imaginava. O levantamento, realizado em dezembro e não registrado na Justiça Eleitoral, buscou medir “quem influencia o voto” dos mineiros. Entre os nomes apresentados aos entrevistados estavam o presidente Lula (PT), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o próprio Zema. Nos bastidores do PL, os resultados reforçaram uma estratégia: convencer o governador mineiro a abandonar uma eventual candidatura própria à Presidência e integrar uma chapa como vice do senador Flávio Bolsonaro. Para o governador mineiro, porém, a decisão envolve riscos políticos claros. Insistir em uma candidatura própria ao Planalto pode significar isolamento dentro de um campo político que busca unificação estratégica. Zema pode tentar sustentar um projeto nacional independente — correndo o risco de ficar politicamente isolado — ou aceitar compor uma aliança maior, abrindo mão do protagonismo para ampliar a viabilidade eleitoral de seu grupo. Mas, a pergunta é: daria tempo para isso? 

Essenciais 

Por enquanto, tudo gira em torno dos próprios interesses e muitos vão até onde dão conta. Outros, percebem que o isolamento é o melhor caminho. Porém, no fim das contas, tanto em Brasília quanto em Minas, a política volta a girar em torno de dois elementos essenciais: confiança e estratégia. Sem confiança nas instituições, a democracia se fragiliza. Sem estratégia política, projetos de poder dificilmente prosperam.

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