Diagnóstico tardio do câncer de colo do útero eleva custos no SUS

Da Redação
Um estudo realizado pela MSD Brasil, empresa farmacêutica global que produz a vacina nonavalente contra o HPV, com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS), aponta que quanto mais avançado é o diagnóstico do câncer de colo do útero, maiores são os custos para o sistema público de saúde. Além de impactar a sobrevida das pacientes, o atraso no diagnóstico aumenta a necessidade de internações, procedimentos médicos e tratamentos complexos.
Segundo o Ministério da Saúde, o HPV é a principal causa do câncer de colo do útero, que ocupa a terceira posição entre os tipos de câncer mais incidentes em mulheres no Brasil. São estimados 17 mil novos casos anuais entre 2023-2025.
Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam a ocorrência de 15 casos para cada grupo de 100 mil mulheres no país. A doença é considerada a que mais mata mulheres no Nordeste brasileiro, com 20 mortes por dia no país — número que supera em até seis vezes as estatísticas de feminicídio em alguns estados.
Divinópolis também retrata esta realidade.
Estudo nacional
A pesquisa analisou informações de 206.861 mulheres com mais de 18 anos, diagnosticadas com a doença entre janeiro de 2014 e dezembro de 2021. Segundo os pesquisadores, 60% dos diagnósticos no Brasil ocorrem em estágios avançados da doença. Realidade que contribui para a maior demanda por recursos hospitalares e oncológicos.
Segundo a ginecologista da Avacci, entidade filantrópica de combate ao câncer, Tania Oliveira, um dos principais desafios do câncer de colo do útero é que, muitas vezes, os sintomas só aparecem em estágios avançados da doença.
— O sinal mais comum é o sangramento vaginal, especialmente após a relação sexual. Também podem ocorrer corrimentos com mau cheiro, alterações na cor, além de perda de peso e dores pélvicas. Quanto antes for feito o diagnóstico, maior a chance de cura e menor o custo para o sistema de saúde — explica.
Os números mostram que, conforme o estágio do câncer no momento do diagnóstico, cresce o percentual de pacientes que necessitam de quimioterapia, assim como a frequência de internações e visitas ambulatoriais mensais:
| Estágio do câncer no momento do diagnóstico | Necessidade de quimioterapia | Internações por mês | Visitas ambulatoriais por mês |
| 1 | 47,1% | 0,05 | 0,54 |
| 2 | 77% | 0,07 | 0,63 |
| 3 | 82,5% | 0,09 | 0,75 |
| 4 | 85% | 0,11 | 0,96 |
De acordo com a ginecologista, além de salvar vidas, o diagnóstico precoce também reduz gastos do sistema de saúde, já que os tratamentos em estágios avançados exigem procedimentos mais complexos e caros.
— Quanto mais grave for a doença, maior será o gasto com o tratamento do paciente. Durante o tratamento, muitas vezes é necessário recorrer à radioterapia, quimioterapia ou cirurgias, procedimentos custosos que são financiados pelo sistema de saúde e geram impacto significativo. Por isso, a prevenção se mostra muito mais vantajosa, inclusive do ponto de vista econômico — explicou.
Disparidades sociais e econômicas
O estudo também ressalta desigualdades relacionadas ao câncer de colo do útero. Até 80% das mortes acontecem em países de baixa e média renda, como o Brasil.
A maioria dos diagnósticos no país envolve mulheres não brancas, com baixa escolaridade e dependentes do SUS. Para os pesquisadores, essa realidade reforça a urgência de políticas públicas que ampliem o acesso à prevenção, ao rastreamento e ao tratamento precoce.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima a ocorrência de cerca de 17 mil novos casos por ano.
Divinópolis
Entre 2018 e 2022, Divinópolis registrou 134 casos de câncer de colo do útero. Os dados revelam um retrato marcado por desigualdades sociais e educacionais. Mais de um terço das mulheres diagnosticadas, 34,33%, tinham apenas o ensino fundamental incompleto, enquanto 12,69% concluíram o fundamental e 26,12% possuíam ensino médio. Já o percentual de pacientes com ensino superior completo foi de apenas 8,21%, seguido por 1,49% com superior incompleto e 2,24% sem qualquer escolaridade.
A análise da assistência prévia também chama atenção. Mais da metade das mulheres, 55,96%, chegou ao hospital já com diagnóstico, mas sem ter iniciado tratamento. Outras 23,14% estavam em tratamento no momento da entrada no sistema hospitalar, enquanto 14,93% sequer tinham diagnóstico nem tratamento.
Prevenção e vacinação
Cerca de 99% dos casos de câncer de colo do útero estão associados a infecções persistentes pelo papilomavírus humano (HPV). A prevenção, portanto, depende da vacinação contra o HPV, da realização de exames de rotina para rastreio da infecção e do tratamento de lesões pré-cancerígenas.
Na rede pública, a vacina quadrivalente é oferecida gratuitamente a meninos e meninas de 9 a 14 anos. Também está disponível, entre 9 e 45 anos, para grupos específicos, como pessoas vivendo com HIV/Aids, pacientes em tratamento oncológico, transplantados, vítimas de abuso sexual, indivíduos com imunodeficiências e usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP).
Na rede privada, é comercializada a vacina nonavalente, indicada para pessoas de 9 a 45 anos.
A ginecologista reforça que a vacina contra o HPV é fundamental e deve ser aplicada antes do início da vida sexual, preferencialmente ainda nas escolas.
Teste DNA-HPV no SUS
Desde o dia 15 deste mês, o SUS passou a oferecer o teste de biologia molecular DNA-HPV para o rastreamento do câncer de colo do útero. A tecnologia identifica 14 genótipos do HPV e permite detectar a presença do vírus antes do surgimento de lesões ou câncer em estágios iniciais, mesmo em mulheres sem sintomas.
O exame substitui o papanicolau, que será utilizado apenas em casos em que o resultado do teste molecular for positivo. A coleta é semelhante à do exame tradicional, mas a amostra é enviada ao laboratório em tubo com líquido conservante, onde é feita a pesquisa do DNA viral.
De acordo com o Ministério da Saúde, o novo método é mais preciso e possibilita intervalos maiores entre os exames — de até cinco anos quando o resultado for negativo.
A tecnologia será oferecida inicialmente nos seguintes estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Bahia, Pará, Rondônia, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco e no Distrito Federal, porém a implementação começa com um município em cada estado e será ampliada conforme a finalização da substituição do método.
Apesar do avanço, a médica reforça que a tecnologia vai demorar a ser implementada de forma ampla.
— Mesmo em consultórios particulares, o teste DNA-HPV ainda não é uma realidade para todas as mulheres. Acredito que, para ser implementado de forma ampla no SUS, ainda vai levar tempo. Enquanto isso, é essencial reforçar a vacinação e os exames de rastreamento que já estão disponíveis — afirmou.
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