Divinópolis à beira do colapso

Matheus Augusto
Em 8 de março, a Secretaria Municipal de Saúde (Semusa) anunciava o primeiro caso confirmado de covid-19 em Divinópolis ? e Minas Gerais. Dez meses depois, a preocupação e o vírus continuam. O respeito às normas de prevenção, porém, regrediu, conforme avaliação da própria pasta. Para ? novamente ? tentar frear o avanço da doença, representantes da saúde de hospitais da cidade se reuniram na tarde desta terça-feira, 15, para fazer um apelo à população: neste ritmo, o município pode voltar aos estágios iniciais da doença, quando as ruas ficavam vazias, o trânsito leve e apenas o comércio essencial podia funcionar.
Gravidade
“A situação que estamos vivenciando é a mais grave que nós percebemos desde o início da pandemia.” Assim definiu a diretora da Vigilância em Saúde, Janice Soares, sobre o atual momento. Com a chegada das festas de fim de ano, o papel do cidadão se torna ainda mais importante. Assim como era em março, os cuidados recomendados permanecem os mesmos.
— É fundamental agora que a gente evite sair. Se precisar sair, usem as máscaras. Estou vendo muitas pessoas nas ruas com máscara no queixo ou sem — comentou.
A higienização das mãos também deve ser feita sempre que houver contato com superfícies e o distanciamento, de ao menos 1,5 metro, se mantém. Janice também orienta os moradores a evitarem aglomerações.
— A incidência continua muito alta, estamos com uma circulação viral altíssima — destacou.
Atualmente, o índice de transmissibilidade está em 1,16, ou seja, “cada dez contaminados transmitem o vírus para 16 pessoas”.
— Isso é um descontrole da situação epidemiológica — afirmou a diretora.
Segundo ela, os hospitais estão “ficando cheio com pacientes de covid-19”, motivo de preocupação com a alta na ocupação de leitos.
— A UPA estava numa situação razoavelmente tranquila. De ontem [segunda] para hoje [terça], passamos de cinco pacientes para dez — relatou.
Para evitar a piora desse cenário, é preciso retomar o estado de alerta do início da pandemia.
— É uma situação alarmante, em que cada um precisa fazer sua parte. Agora mais do que nunca — explicou.
A diretora sanitária explicou ainda que um dos motivos de alerta crítico é não apenas o crescimento do número de casos na cidade, mas na região, uma vez que Divinópolis é referência na área.
— Espero contar com o apoio da população — finalizou.
Na UPA
Presente na coletiva, o coordenador médico do hospital de campanha e da Unidade de Pronto Atendimento (UPA), Tarcísio Teixeira de Freitas, falou sobre a situação no local.
— Nossa enfermaria trabalha sempre com 100% de ocupação — contou. A lotação na UTI está em cerca de 50%.
Ainda segundo Tarcísio, seis pacientes foram transferidos recentemente para o setor de enfermaria do Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD) e um foi transferido do hospital para o CTI da UPA.
— Isso, mais do que nunca, é um alerta — classificou.
Com o ritmo de aumento nos casos atuais, o coordenador vê a estrutura de pronto atendimento como uma das principais a serem afetadas pelo agravamento da crise.
— A gente tem um relaxamento da população no uso de máscara, de aglomeração, de não respeitar o distanciamento social, e isso reflete principalmente no carro-chefe do SUS, que é a UPA e o hospital de campanha — complementou.
E, claro, a unidade também é referência para a microrregião: Carmo do Cajuru, Itapecerica, São Gonçalo do Pará, São Sebastião do Oeste, Cláudio, Itapecerica, Perdigão e Araújo. “Por ser uma unidade porta aberta, num piscar de olhos, pode encher e saturar”, citou.
— Os hospitais da região saturando, precisamos dar apoio — explicou.
Ele ainda aponta preocupação não apenas com a disponibilidade leitos, mas também com o número de profissionais ativos na linha de frente de combate à enfermidade.
— Se não nos cuidarmos, não teremos profissionais para atender os pacientes nem espaço físico para recebê-los — concluiu, solicitando a atenção redobrada com as festas de fim de ano.
Atualmente, 10% (17) dos técnicos e enfermeiros da UPA estão afastados por motivos diversos, mas a situação é vista como “controlável” no momento.
Afastamentos
O afastamento de profissionais de saúde não é problema exclusivo da UPA. A diretora-presidente do CSSJD, Elis Regina Guimarães, comentou enfrentar a mesma adversidade. É a quarta onda da covid-19.
— A quarta onda é o agravamento da saúde dos colaboradores, por questões físicas e psicológicas. Hoje, o São João tem 1.618 colaboradores. Desses, 44 com suspeita ou confirmados de covid [segundo Elis, contaminações externas e não dentro do hospital]; 73 vagas abertas que eu não consigo repor; e ainda estou com 33 de atestado não covid — detalhou.
O crescimento dos casos acaba, consequentemente, exigindo mais dos trabalhadores. "Estão ficando cansados”, definiu.
— Houve uma curva ascendente de horas extras. Estamos conseguindo manter o hospital? Estamos. (...) as equipes estão exaustas, se afastando por cansaço, médicos por burnout... Precisamos tomar consciência do que está acontecendo. Saúde não é só covid — ressaltou.
Enquanto isso, a terceira onda, também em andamento, é o agravamento do quadro de saúde de pacientes considerados eletivos.
— A região está muito saturada em leitos gerais de CTI porque os pacientes que eram antes eletivos, estão agravando e virando urgência — destacou.
A diretora-presidente do São João de Deus também falou sobre a ocupação hospitalar. “De leitos de alta complexidade no SUS de CTI para covid temos apenas dez na região.” Criar novos leitos também não é, no momento, uma alternativa viável.
— Não adianta aumentar leito de covid se vai faltar máquina de hemodiálise para os pacientes que agravam — justificou, citando a necessidade de não apenas ter o espaço físico para ampliar a estrutura, mas instalar equipamentos e condições de trabalho para atender os enfermos.
Outro agravante da situação é a demora para o diagnóstico da doença.
— A Fundação Ezequiel Dias, que estava entregando os exames em cinco dias, hoje, gasta no mínimo dez, com previsão para 20 — pontua Elis Regina.
Ela reflete: “Vocês já pensaram em uma pessoa internada por 20 dias esperando para poder receber o resultado e o hospital poder juntar ela com outra?”. Assim, apesar de a ocupação parecer baixa, os pacientes com suspeita de covid e em tratamento para outras doenças não podem ser “misturados” até um resultado definitivo. A demora nos teste estende a estadia nos setores de internação.
— Esse é realmente um cenário difícil — destacou.
Com fatores contribuindo para a piora dos indicadores e colaborando para um “estouro” da rede de saúde, cabe aos moradores reforçarem as medidas de proteção ao vírus.
— Ou a população ajuda efetivamente e não se aglomera, não faz festa de fim de ano, ou vai faltar leito ? e se não faltar leito vão faltar pessoas para trabalharem. Estamos preocupados com o que vai acontecer se não mudar a cultura e o comportamento das pessoas neste momento — argumentou.
Cresce tempo de internação
Representante do Hospital Santa Mônica, o diretor técnico e coordenador do CTI, Paulo Grossi, disse que a situação se agravou com alguns diferenciais.
— Em todos esses meses que a gente vem vivenciando a pandemia, é fato que o número nunca foi tão alto, mas é fato também ? e isso ocorre em todo o cenário brasileiro ? que a gravidade do paciente mudou. Os pacientes, aparentemente, estão mais graves dentro da unidade de internação e da UTI — relatou.
— Com insuficiência respiratória grave, os pacientes com casos suspeitos ou confirmados de covid-19 têm passado mais tempo internados. E isso nos assusta — classificou.
— A internação, sobretudo em UTI, demanda dias e dias. E, por mais que trabalhemos diariamente a locação e de recursos, isso pode se tornar finito.
As comorbidades continuam como agravante da doença, mas há exceções.
— Ainda prevalecem os fatores de risco, hipertensão, diabetes, obesidade, mas a gente tem visto agora muito mais uma diversidade em termos de idade e de outros fatores. Então, o risco é para todos — disse.
Por isso, o pedido:
— A melhor defesa, nesta pandemia, ainda é ficar em casa, por favor — completou.
Mesmo fora da onda
vermelha, mais medidas
Ao fim da coletiva, Janice explicou o novo decreto em vigor nesta semana: bares, restaurantes e estabelecimentos afins podem vender bebidas alcoólicas apenas durante o horário de funcionamento ? das 17h às 23h. Fora desse período, mesmo na modalidade delivery, é passível de penalização.
De acordo com a diretora de Vigilância em Saúde, novas medidas podem ser adotadas nos próximos dias.
— O prefeito aguarda o posicionamento do Minas Consciente, que deve sair na quinta pela manhã, para avaliarmos se vamos ficar muito próximos da onda vermelha ou já entraremos nela — explicou.
Mesmo se mantendo na onda amarela do programa estadual, outros decretos serão estudados para evitar a regressão.
— Não indo esta semana, ele [Galileu] se posicionou que quer, sim, junto ao comitê, fazer mais restrições caso necessário, no sentido de trabalhar os dados epidemiológicos para não irmãos para a onda vermelha — citou.
Janice também falou sobre o pedido da Secretaria ao Estado para a suspensão das cirurgias eletivas.
— Uma vez que haja a suspensão das cirurgias eletivas, nós conseguimos desafogar um pouco os leitos, sobrando leitos para atendimento covid — frisou.
Atualmente, a cidade conta com cerca de 841 pessoas cadastradas na fila de espera por um procedimento. A maior demanda é por ortopedia, cirurgia geral e ginecologia.
A intenção é, em paralelo, articular e reorganizar os leitos da região “para que pacientes menos graves possam ir para municípios próximos e os pacientes mais graves para o São João de Deus”.
— Sem o apoio da população não vamos conseguir passar pela pandemia sem problemas de assistência. Não queremos, de forma nenhuma, que pacientes morram nos hospitais por falta de leitos — finalizou.
Leia também
Plano nacional de vacinação contra covid-19 é anunciado pelo Governo Federal
Romeu Zema detalha Plano de Vacinação em Minas Gerais
Falta de experiência, de informações e suspeita de desvio de recursos por OS eram apontadas já em 2019
Divinópolis tem duas mortes registradas nas últimas 24 horas; cidade chega a 87 óbitos pela covid-19
Covid-19 tira mais um artista de cena
Aumenta preocupação com doenças ligadas ao Aedes aegypti no verão
Mais recentes
São João de Deus promove capacitação sobre cuidados paliativos para voluntários
Por que cada minuto importa no atendimento ao paciente
Divinópolis aplica 31 mil doses contra a dengue desde 2024
São João de Deus reduz em até 66,7% os tempos de atendimento ao AVC e apresenta avanços em simpósio científico
Do nosso arquivo
Veja tudo o que publicamos em dezembro de 2020
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…




