Divinópolis registra dois homicídios em menos de sete horas e alcança 20º assassinato em 2025

Elian Ozéias
Em um intervalo de pouco mais de seis horas, Divinópolis registrou dois homicídios brutais neste sábado, 31, elevando para 20 o número de assassinatos no município em 2025 – um aumento alarmante em comparação com os nove casos registrados no mesmo período do ano passado. Os crimes, marcados por extrema violência, chocaram moradores e acenderam um alerta sobre a escalada da criminalidade na cidade.
20 tiros em via pública
O primeiro homicídio ocorreu na manhã de sábado, no bairro Nossa Senhora das Graças. De acordo com testemunhas, a vítima, um homem de 29 anos, foi perseguida por ocupantes de um Fiat Palio Weekend, que colidiram propositalmente contra sua moto. Após a queda, os criminosos desceram do veículo e efetuaram cerca de 20 disparos contra o homem, que morreu no local antes da chegada do Samu Oeste.
Os assassinos fugiram em direção ao Aeroporto Brigadeiro Cabral, e o veículo usado no crime foi encontrado queimado horas depois, na avenida Brigadeiro Eduardo Gomes, próximo ao Buritis. A Polícia Civil investiga possíveis ligações da vítima com atividades criminosas, mas ainda não confirmou as motivações.
Segundo Homicídio
Na tarde do mesmo dia, outro crime brutal aconteceu no bairro São Geraldo. Um homem de 34 anos morreu após tentar invadir uma casa junto com um comparsa, perseguindo um motociclista com quem teriam tido um desentendimento no trânsito. Segundo a PM, os suspeitos ameaçaram a vítima durante a perseguição e tentaram arrombar a residência dela.
O pai do motociclista, um atirador desportivo com arma registrada, reagiu e atirou contra um dos invasores, que morreu no local. O segundo suspeito fugiu a pé, abandonando o carro (um Fiat Strada preto). O autor dos disparos se apresentou à polícia e foi preso em flagrante.
Crise na segurança pública
Dados obtidos pelo Agora mostram que, em apenas cinco meses, Divinópolis já ultrapassou o dobro de homicídios registrados em 2024 (9):
| Mês | 2024 | 2025 |
|------------|---------|---------|
| Janeiro | 0 | 3 |
| Fevereiro | 2 | 5 |
| Março | 4 | 4 |
| Abril | 1 | 2 |
| Maio | 2 | 4 | ( Feminicídio 1)
Além disso, a cidade já contabiliza 11 tentativas de homicídio neste ano.
A maioria das vítimas (14 dos 19 casos) são jovens entre 18 e 29 anos, indicando um perfil preocupante de violência urbana.
Operações policiais e corte de recursos
Enquanto a criminalidade avança, a Polícia Militar (PM) e a Polícia Civil (PC) intensificam operações, como a "Território Inimigo", que prendeu suspeitos de envolvimento em oito homicídios. No entanto, o governador Romeu Zema (Novo) anunciou cortes de recursos na segurança pública devido à crise fiscal do estado, o que pode prejudicar ainda mais o combate ao crime.
O deputado Sargento Rodrigues (PL) criticou a medida.
— O governo só investe migalhas na segurança. Sem viaturas, armas e treinamento, a situação só vai piorar — destacou.
Falta de políticas públicas
Em entrevista ao Agora, o cientista social e mestre em Educação pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Genival Souza Bento Júnior, reflete sobre o aumento dos homicídios no Brasil e a ocorrência de dois assassinatos no mesmo dia, destacando que a violência não é apenas um problema de estatísticas, mas também de percepção social.
— O Brasil ainda lidera os índices de homicídios no mundo, segundo a ONU, e mesmo com a redução em 2023, a sensação de insegurança persiste — afirma Bento Junior.
Ele ressalta que, além dos fatores estruturais como desigualdade social, desemprego e falta de acesso à educação, é preciso discutir o que significa sentir-se seguro e como transformar isso em políticas públicas eficazes.
Pobreza e a criminalidade
O especialista evita estabelecer uma relação direta entre pobreza e crime, mas reconhece que a ausência de bem-estar social — como acesso a emprego, saúde e moradia — pode levar indivíduos a enxergarem a criminalidade como uma forma de "reparação".
— Não se trata de justificar o crime, mas de entender que a exclusão social facilita a entrada nesse ciclo — explica.
Falta de comunidade e a desumanização do outro
Bento Júnior aponta que, em um sistema capitalista marcado por profundas desigualdades, a ideia de comunidade se perdeu.
— Quando deixamos de ver o outro como parte essencial da sociedade, criamos um ambiente onde a violência parece uma resposta válida — reflete.
Ele questiona:
— O que leva alguém a tirar a vida de outro? Que tipo de 'dívida' justifica um assassinato cruel? — indaga.
Redução da violência
Como solução, o cientista social defende uma abordagem multissetorial, envolvendo segurança pública, escolas, associações de bairro e tecnologia da informação.
— Prever homicídios é complexo, mas políticas integradas podem prevenir novos casos — afirma.
Ele sugere que o Estado e a sociedade trabalhem juntos para responder. O que falta e quais recursos temos para resolver esse problema?
— Segurança pública se constrói com investimento e diálogo — conclui Bento Junior. Precisamos ir além do discurso simplista do encarceramento e agir de forma coletiva para que, de fato, as pessoas se sintam seguras — Conclui.
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