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Augusto Ambrosio Fidelis

Eis o Homem

Por Bruno
Eis o Homem

Augusto Fidelis

Lava-me, Senhor, não só os pés, mas também o corpo e a alma, para que eu seja um instrumento da vossa paz. Sei que tantas vezes errei, tantas vezes duvidei do vosso amor. Parti em busca de futilidades, da felicidade perene, no entanto, só tive alguns momentos felizes. Quando o vazio apoderou-se do meu íntimo, cansado das promessas vãs e das enganações do mundo, tal qual o Filho Pródigo confiei no vosso amor e voltei. Voltei para pedir perdão de todo o egoísmo, de toda a vaidade que carreguei no coração. Aqui estou ante vossa face e vos rogo: lava-me, Senhor!

Quando estivéreis preso e insultado pelos malvados, que eu não espere o cantar do galo para prestar-vos solidariedade. Todos os dias o sol se levanta e se põe e não nega luz aos bons e aos maus; a chuva cai para os que plantam e para os que estão ociosos. Eu, porém, tenho dado peixe aos amigos e cobra aos desafetos. Não tenho me importado com a sorte dos semelhantes. Finjo que não vejo as inúmeras mãos estendidas, rogando ao menos uma palavra de conforto para acalmar os desatinos do espírito. Quisera eu ser um bom samaritano, mas tem-me faltado coragem. Então, lava-me, Senhor!

Tenho medo, Senhor, de ser tentado a gritar novamente: crucifica-o, quando Pilatos mais uma vez vos apresentar: “Eis o Homem”. Vós dissésseis: “Não julgueis, para não serdes julgados”. Lamentavelmente, ainda não consegui me libertar da mania de ajuntar pedras, não para construir, mas para apedrejar os pecadores que cometem as mesmas faltas que tenho cometido. Não consigo, Senhor, tirar a trave que cerra os meus olhos, porém, acho-me à altura de tirar ciscos nos olhos dos irmãos. Preciso reconhecer que não sou digno de ser tratado entre os vossos servos. É por isso que vos peço: lava-me, Senhor!

Desejo estar na Via Dolorosa para jogar-me ao solo e impedir vossas quedas, aliviar os vossos ombros do peso do lenho. Quando espirardes no alto da cruz, permita-me, Senhor, estar junto de vossa Mãe Santíssima para confortá-la, e, assim que chegar a hora, auxiliar José de Arimatéia e Nicodemos a sepultar o vosso corpo. Que a celebração do vosso santo sacrifício dê paz à humanidade e mais fé para os homens e as mulheres de boa vontade. Lava-me, Senhor!

Quero estar ainda à entrada do sepulcro depois da vossa ressurreição, para ver os panos dobrados e bradar ao mundo com toda força de minh’alma: Aleluia, Cristo ressuscitou! Quero ser luz, Senhor, para dissipar as trevas, e amar mais do que sou amado, porque só vós tendes a recompensa. Por isso, mais uma vez vos rogo: lava-me, Senhor!

augustogidelis1@gmail.com 

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