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João Carlos Ramos

Entre o chicote e a paixão

Por Bruno
Entre o chicote e a paixão

João Carlos Ramos

Alguns historiadores brasileiros relatam sobre paixões proibidas entre as senhoras e sinhazinhas de engenho por escravos. Geralmente, as mucamas serviam de intermediárias, relatando de forma totalmente sigilosa os atrativos de determinados escravos bem-dotados, belos e que atraíam a atenção de todas em seu trabalho diário, obrigatório.

As sinhás frequentemente ficavam isoladas em seus aposentos, por causa dos numerosos negócios das fazendas, que tomavam tempo de seus maridos. As sinhazinhas, proibidas de manter laços de afeto com homens de outras classes sociais, ficavam à mercê do destino... Ambas não deixavam de manter olhadelas no turbilhão de escravos à procura de alguém que chamasse a atenção de forma especial.

Chegou até nós, pela literatura oral, alguns casos assustadores. Por exemplo, a paixão nascida entre a Sinhá Lúcia e o escravo Joaquim. Joaquim era um escravo alto e forte e trabalhava como os demais, com o tronco à mostra, por causa do suor intenso derramado diariamente.

Lúcia era bela como uma porcelana e clara como o sol, sendo, porém, triste como um pássaro caído do ninho... Ela sonhava com um homem ideal, que viesse satisfazer todos os desejos do coração e do corpo em erupção. O seu homem tinha tempo demais para os negócios e viagens, menos para elogiar sua beleza e satisfazer seus instintos femininos.

Joaquim chamou sua atenção, tendo-o observado pelas frestas da janela. Sua mucama, sempre obediente à patroa, observava tudo em um silêncio mortal. Um dia ensolarado, a sinhá resolveu abrir o coração para ela e confessar seu interesse pelo Joaquim.

— Ele é fogo abrasador, minha senhora! Nenhuma mulher é a mesma após cair em seus braços de aço. Dizem as fofoqueiras da senzala que ele provoca orgasmos triplos nas mulheres, e elas se tornam prisioneiras da noite. Contudo, a senhora é uma mulher proibida e seus pensamentos em relação a ele devem ser esquecidos. Quero apenas te ajudar, minha senhora!

O coração, dizem os sábios, é uma areia movediça. "Quem nela cai, jamais sai."

Lúcia sonhava acordada e via Joaquim em sonhos e noites mal dormidas. O perigo estava instalado. Havia uma distância infinita entre senhores e escravos, pois a horrenda escravidão separava as pessoas e punia severamente a oposição ao sistema escravista. Consequentemente, os corações ficavam congelados e o amor se transformava em peça rara.

Lúcia havia entrado em um labirinto e se tornava também escrava de uma paixão arrebatadora... Ela não via barreiras na pele e, pela primeira vez, o seu coração andava como um relógio, próximo à badalada fatal.

Através de sua mucama Felisbela, ela marcou um encontro, aproveitando a ausência do seu marido. Aconteceu, em total sigilo, a primeira noite do casal, rumo à felicidade....

Joaquim, tendo experiências em domar cavalos selvagens e a enfrentar onças e demais perigos da selva, tinha diante de si uma mulher dócil, cujo coração já estava amansado pelo amor. O sol radiante do corpo da amada aguardava o pôr do sol para conhecer os mistérios da noite no corpo do seu amado, enquanto se encantava com a testemunha lunar.

A seara estava madura para a colheita revolucionária do amor. Os encontros se tornavam sucessivos e o perigo aumentava assustadoramente. O corpo da senhora agora pertencia ao escravo Joaquim. Outra mulher, enciumada por não se relacionar com o escravo, delatou tudo ao marido traído, senhor daquelas terras.

No outro dia, o escravo Joaquim foi levado ao suplício do tronco e o chicote estalava... Lúcia, obrigada a assistir a tudo, tendo o coração despedaçado. Dentro de horas ele estava morto e a bela Lúcia, condenada ao desprezo e ao silêncio eterno.

Assim era no tempo da escravidão…

jocarramos@gmail.com

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