Inês é morta…

João Carlos Ramos
Inês de Castro nasceu em 1325 e faleceu em 7 de janeiro de 1355. Ela foi uma nobre cortesã galega, vítima de uma trágica paixão por D. Pedro I de Portugal. Era dama de companhia de Constança de Castela, esposa do ainda infante Pedro, filho do rei Afonso IV. Inicia-se o mais famoso triângulo amoroso de que se tem notícia.
Ocorre uma paixão tórrida entre Pedro e Inês. Ela não foi apenas uma mulher fatal. Foi o belo erro de um príncipe e o pesadelo de um reino que temia mais os efeitos do coração do que a própria guerra. A sombra se tornou o sol absoluto do jovem príncipe que se sentia atormentado entre a razão e o sonho. Os dois seres, nos jardins da Quinta das Lágrimas, formavam uma só peça, fundida no forno da paixão sem medidas. Jamais alguém pode esconder o sol entre as ramagens... Aos poucos, foi se tornando público e notório aquele caso de adultério real. Alguma coisa deveria ser feita para impedir a continuidade daquela paixão... (diziam...) Foi então que o rei Afonso baniu Inês para Albuquerque. Impossível alguém cercar as águas do mar!...
O infante mantinha encontros proibidos com a bela jovem Inês. Foi nesse momento que a cúpula de conselheiros reais induziu o rei a realizar um plano macabro: assassinar Inês seria o único caminho. O rei, movido pela frieza do trono, viu nela um perigo iminente e desempenhou a trama maquiavélica. Aproveitando a ausência do infante, Pedro, Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes, a pedido do rei, assassinaram brutalmente a jovem Inês, no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, situado em Coimbra, na frente dos filhos pequenos dela. Em 1357, Pedro se torna rei de Portugal, com a morte do pai. A vingança seria atroz e fatal. Iniciou-se uma caçada feroz aos assassinos de Inês.
Foram mortos de forma exemplar. D. Pedro lhes arrancou o coração publicamente, pois não poderiam tê-lo após terem causado tanta dor no coração dele. A seguir, ocorreu algo impensável e que se tornaria o maior ato supremo de dor e saudade jamais visto na história de Portugal. O cadáver foi retirado do túmulo e, em desfile cívico, feita uma procissão com todos os súditos de seu reino, sob pena de morte para quem não cumprisse a ordem. Colocaram-na no trono e a coroaram como rainha, sendo todos obrigados a beijar a mão do cadáver e fazer continências reais. A vingança de D. Pedro I de Portugal ecoou por séculos. Chorando copiosamente, ele bradou a frase imortal: INÊS É MORTA!...
Ordenou que, após sua morte, dois túmulos deveriam estar aguardando o juízo final. Um olhando para o outro, aguardando a ressurreição na eternidade. O dele e o da amada Inês.
A jovem foi imortalizada pelo famoso poeta Camões. Também inspirou filmes, livros, músicas, poesias e discursos acadêmicos até nossos dias atuais. Se ela estivesse viva, obviamente citaria Anna de Assis, ex-esposa do escritor Euclides da Cunha: "Eu não errei, eu amei!" Camões canta: "O caso triste e digno de memória, que do sepulcro os homens desenterra, aconteceu da mísera e mesquinha, depois de ser morta, foi rainha. As filhas do Mondego, a morte escura, longo tempo chorando, memoravam, e por memória eterna e fonte pura, as lágrimas choradas transformaram:
O nome lhe puseram, que ainda dura, dos amores de Inês que ali passaram. Vede que a fresca fonte rega as flores, que lágrimas são água e o nome amores!"
Eu também, sendo poeta, comovido, escrevo agora:
Eu queria conhecer Inês para enxugar-lhe a fronte.
Paralisado com beleza tanta, eu diria então:
Que lindo amor, mesmo impossível sendo,
e por amor vivendo e por amor morrendo!
jocarramos@gmail.com
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