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Augusto Ambrosio Fidelis

Gratidão de um ateu

Por Portal Agora
Gratidão de um ateu

Tenho um amigo que é pós-doutorando em Campinas. E lá ele tem um amigo que se diz ateu. Mas, recentemente, meu amigo entrou na Catedral Metropolitana dessa cidade paulista, igreja dedicada à Nossa Senhora da Imaculada Conceição, e deparou-se com o seu amigo no interior do templo, de braços erguidos, olhando para o alto.

Boquiaberto, o meu amigo, muito discreto, aguardou por um tempo o momento oportuno para aproximar-se do seu amigo e averiguar o que se passava, pois nunca imaginou ver um ateu em oração. No seu íntimo, uma pergunta teimava em não se calava: o que um ateu faz dentro da igreja de braços abertos e olhar para o alto? Assim que foi possível, aproximou-se e inquiriu?

- Você diz, reiterada vezes, que é ateu, então o que faz aqui na igreja?

- Ah! De vez em quando eu venho aqui agradecer, porque a minha vida está muito boa! Vejo outras pessoas fazendo isso, daí faço também.

- Mas se você não crê em Deus, a quem você agradece?

- Sei lá, simplesmente agradeço, sinto esta necessidade.

Meu amigo achou por bem deixar o seu amigo em paz. Mas saiu do local convicto de que seu amigo, no fundo, é um crente, pois, caso contrário, não iria à igreja, e nem sentiria essa necessidade de agradecer as bênçãos sobre sua a vida.

A gratidão é um preceito bíblico. Quando Jesus curou os dez leprosos e somente um voltou para agradecer, Jesus perguntou: “Onde estão os outros?”. Há de se lembrar que, independentemente de crer ou não crer, Deus faz o sol nascer a cada manhã sobre todos e faz chover sobre os bons e os maus, não porque mereçam, mas porque precisam.

Para François de La Rochefoucauld, “a gratidão da maioria dos homens não passa de um desejo secreto de receber maiores favores”. Porém, William Shakespeare enxerga de outra forma e admoesta: “A gratidão é o único tesouro dos humildes”. Sobre esse assunto, encoraja Sêneca: “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação da sua dívida.”

Segundo o escritor mato-grossense Manoel Delgado, ao comentar sobre “Confissões” de Santo Agostinho, “muitos são abençoados, mas poucos param para refletir sobre o quanto foram ajudados, estimulados, amados, capacitados ou protegidos. Muitos desejam benefícios, mas quando os recebem logo se esquecem daqueles que os abençoaram. É triste, mas é verdadeiro. A ingratidão vem do esquecimento dos bens e a gratidão vem da percepção dos benefícios”. 

Nesse contexto, vale o conselho de Masaharu Taniguchi: “Expresse gratidão com palavras e atitudes. Sua vida mudará muito de modo positivo”. Que assim seja!

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