‘Meu campo visual já estava bastante afetado’: relato reforça importância do diagnóstico precoce do glaucoma

Gabriela Lara
A perda gradual da visão, muitas vezes sem qualquer sinal aparente, é uma das principais características do glaucoma, doença considerada atualmente a principal causa de cegueira irreversível no mundo. O alerta ganhou ainda mais destaque nesta semana com a celebração do Dia Nacional de Combate ao Glaucoma, lembrado em 26 de maio, data que reforça a importância dos exames oftalmológicos periódicos para identificação precoce do problema. Em Minas Gerais, o tratamento é disponibilizado gratuitamente por meio da rede pública de saúde.
Conhecido como uma doença silenciosa, o glaucoma é um grupo de doenças oculares que provoca danos progressivos ao nervo óptico, estrutura responsável por transmitir ao cérebro as imagens captadas pelos olhos. Em muitos casos, a condição está relacionada ao aumento da pressão intraocular e pode comprometer gradualmente a visão.
Sinais da doença
Embora a doença normalmente não apresente manifestações nos estágios iniciais, a oftalmologista especialista em glaucoma, Júlia Corradi, explica que a perda visual geralmente começa de forma periférica, dificultando a percepção do paciente.
Segundo a médica, o indivíduo muitas vezes não percebe que algo está errado porque a alteração ocorre lentamente. Ela afirma que, em muitos casos, apenas quando a visão central começa a ser afetada o paciente busca ajuda médica, acreditando inicialmente que o problema está relacionado ao grau dos óculos.
— O paciente começa a perder visão do campo periférico. Muitas vezes, quando essa doença progride para a visão central, ele pensa que o óculos está fraco ou que a visão está ruim — afirmou.
A médica reforça ainda que consultas de rotina são fundamentais para avaliação da saúde ocular.
— É super importante fazer o exame de rotina, fazer a avaliação completa com fundo de olho, avaliação da pressão intraocular. Porque, com isso, o seu médico vai conseguir observar a saúde ocular, avaliar se você tem suspeita de glaucoma, principalmente aqueles pacientes que têm histórico familiar — orientou.
Fatores de risco
A prevalência do glaucoma é estimada em aproximadamente 3% da população acima dos 40 anos, tanto no Brasil quanto em outros países, e o risco aumenta conforme a idade avança. Entre os fatores associados à doença estão pressão intraocular elevada, histórico familiar, diabetes, uso de corticoides, etnia e alterações oculares.
A especialista ressalta que pessoas com casos da doença na família precisam manter atenção redobrada e realizar acompanhamento contínuo.
Mesmo sendo mais frequente em adultos, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) alerta que a doença também pode atingir crianças e recém-nascidos.
Uma descoberta tardia
A experiência da Miriam Freitas, uma das pacientes da Júlia Corradi, mostra como o glaucoma pode evoluir durante anos sem ser percebido.
Ela conta que começou a receber orientações sobre o risco de desenvolver a doença ainda aos 20 anos, durante uma consulta oftalmológica realizada em Belo Horizonte. Como apresentava miopia e astigmatismo, foi alertada sobre a necessidade de acompanhamento periódico e exames específicos.
Durante anos, Miriam relata que informava aos médicos sobre esse histórico. Em determinado momento, porém, recebeu a informação de que não apresentava sinais da doença, o que fez com que diminuísse sua preocupação.
A descoberta ocorreu somente anos depois, já na faixa dos 40 anos, quando percebeu alterações na visão durante atividades simples do cotidiano.
— Minha visão estava pior. Eu não estava enxergando as linhas de livros abaixo daquela que eu estava lendo — relatou.
Após uma avaliação especializada, veio o diagnóstico: glaucoma avançado, já com comprometimento significativo do campo visual.
Desde então, Miriam iniciou acompanhamento contínuo com uso de colírios e consultas frequentes. Com o avanço da doença, precisou realizar cirurgia nos dois olhos e, posteriormente, novos procedimentos a laser.
Mais recentemente, voltou a enfrentar complicações.
— Há dois anos a pressão do olho esquerdo voltou a subir, chegando a 48. Senti muita dor nos olhos e muita náusea — relatou.
Agora, a paciente se prepara para uma nova etapa do tratamento. Segundo Miriam, como o campo visual voltou a apresentar piora e a pressão ocular aumentou novamente, será necessário realizar uma nova correção cirúrgica do glaucoma, prevista para o próximo mês.
O histórico familiar também reforça a importância do acompanhamento precoce. Miriam explica que o pai e uma irmã também foram diagnosticados com a doença.
— Glaucoma é genético. Meu pai e minha irmã são portadores de glaucoma. Meu pai ficou cego — afirmou.
A paciente destaca ainda a necessidade de atenção por parte dos familiares de pessoas diagnosticadas. Segundo ela, todos devem informar aos oftalmologistas sobre a existência de casos na família e manter acompanhamento regular.
— Quanto mais cedo for tratado, maiores são as chances de não perder a visão. O que perdeu, não recupera mais. Mas o tratamento correto pode impedir a cegueira — relatou.
Tratamento
Apesar de não possuir cura, o glaucoma pode ser controlado quando identificado precocemente. O tratamento tem como principal objetivo reduzir a pressão intraocular e impedir a progressão da doença.
De acordo com Júlia Corradi, grande parte dos pacientes consegue bons resultados com tratamento clínico.
— O tratamento visa estabilizar a doença. Visa reduzir a pressão intraocular e estabilizar a doença com laser ou colírios, na grande maioria dos casos — explicou.
A especialista ressalta que o controle exige comprometimento permanente.
— O paciente tem que entender que precisa usar o colírio todos os dias e fazer controle periódico. Para conseguir atingir um sucesso no tratamento — destacou.
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