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‘Não vou calar mais’: cadeirante denuncia rotina de obstáculos no transporte coletivo 

Por Bruno
‘Não vou calar mais’: cadeirante denuncia rotina de obstáculos no transporte coletivo 

Jonny Reisle

O vídeo que mostra a cadeirante Maria Cristiana, conhecida como Cris, precisando se arrastar para conseguir desembarcar de um ônibus do transporte coletivo de Divinópolis continua repercutindo e ampliando o debate sobre a acessibilidade no sistema. 

Depois da forte comoção provocada pelas imagens, a passageira decidiu contar, em detalhes ao Agora, a realidade que enfrenta diariamente ao utilizar os ônibus da cidade e afirmou que o episódio registrado no último sábado, 27, está longe de ser um caso isolado.

Denúncia

Segundo Cris, o vídeo foi publicado por ela própria justamente para mostrar uma situação que, até então, permanecia invisível para grande parte da população.

— Não foi ninguém que gravou e postou. Fui eu mesma. Eu quis mostrar a realidade do meu dia a dia, porque isso acontece sempre — afirmou.

Ela conta que retornava da igreja acompanhada da irmã e de outros familiares quando solicitou o desembarque. O motorista parou o veículo e tentou acionar a plataforma elevatória, mas o equipamento apresentou falha. Após novas tentativas, sem sucesso, o condutor retornou ao volante.

Diante da situação, familiares precisaram ajudá-la a embarcar novamente para que ela pudesse seguir até o ponto mais próximo de casa. No entanto, ao chegar ao destino, o elevador voltou a não funcionar. Foi então que ela decidiu registrar a cena.

— Eu falei para minha irmã: dessa vez você grava, porque eu vou mostrar o que acontece. Eu não vou ficar calada mais — enfatizou.

Problema recorrente

Durante a entrevista, Cris revelou que convive com dificuldades semelhantes desde que passou a utilizar o transporte coletivo. Segundo ela, é comum que motoristas informem que a plataforma está estragada e orientem que ela aguarde o próximo ônibus.

— Muitas vezes eu fico no ponto porque o motorista fala que o elevador está quebrado. Às vezes nem demonstra se tentou funcionar ou não. Só pedem para esperar o próximo — destacou. 

Ela ressaltou que também enfrenta dificuldades quando consegue embarcar. Em horários de maior movimento, os veículos costumam circular lotados, dificultando a entrada, a circulação da cadeira de rodas e o acesso ao espaço reservado.

— Às vezes preciso pedir licença para todo mundo, passar com a cadeira em cima do pé das pessoas e ainda pedir desculpas. Não tem espaço. Tem passageiro reclamando porque está atrasado, mas eu também tenho meus compromissos. Eu não saio de casa para passear ou atrapalhar ninguém — comentou.

Luta por uma classe

Em um dos momentos mais marcantes da entrevista, Cris afirmou que gostaria que as pessoas experimentassem, ainda que por pouco tempo, as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência.

— Eu daria um mês para alguém calçar os meus sapatos e fazer a rota que eu faço todos os dias. Passar pelo que eu passo e pelo tempo que fiquei em silêncio — disse.

Segundo ela, o silêncio terminou porque percebeu que muitas outras pessoas vivem situações semelhantes, mas acabam não denunciando.

— Estou falando por mim e por tantas pessoas que ficam nos pontos de ônibus esperando porque o elevador não funciona ou porque o ônibus está lotado. Isso precisa acabar — reforçou.

Acessibilidade vai além do ônibus

As dificuldades, segundo Cris, não se limitam aos veículos. Ela afirma que a infraestrutura urbana também representa um desafio constante.

No bairro Jardinópolis, onde mora, o ponto de ônibus utilizado diariamente possui mato alto, calçada parcialmente obstruída e problemas na estrutura, dificultando ainda mais o deslocamento de cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. Ela relata que, ao longo dos anos, já encaminhou diversas reclamações sobre as condições das ruas e do transporte coletivo aos órgãos responsáveis pela fiscalização.

Contato do Executivo

Após a repercussão do vídeo, representantes da Prefeitura entraram em contato com ela para orientar sobre os procedimentos e canais oficiais de denúncia. Mesmo assim, afirmou que continuará tornando públicos novos problemas caso eles persistam.

— Se não melhorar, os vídeos não vão parar. Se for preciso expor minha imagem para mostrar a realidade, eu vou continuar — declarou.

Repercussão

O vídeo provocou centenas de manifestações nas redes sociais, com críticas à qualidade do transporte coletivo, cobranças por maior fiscalização e questionamentos sobre o aumento da tarifa autorizado neste ano.

Após a divulgação das imagens, o Consórcio TransOeste informou que faria uma revisão no veículo para identificar a causa da falha e que prestaria assistência à passageira por meio da equipe de serviço social.

A Prefeitura de Divinópolis também se manifestou. A prefeita Janete Aparecida (Avante) publicou um vídeo solicitando ajuda da população para localizar a mulher que aparecia nas imagens. Poucas horas depois, informou que Cris havia feito contato com o município e que o caso passaria a ser acompanhado pela administração municipal.

O Executivo anunciou que notificará a concessionária para apuração dos fatos e reforçou que continuará fiscalizando a prestação do serviço.

Canal de denúncias

A Prefeitura orienta que usuários do transporte coletivo registrem situações semelhantes por meio do WhatsApp oficial do município, no número (37) 3229-6528.

Para formalizar a reclamação, o cidadão deve acessar a opção "Settrans – Trânsito" e, em seguida, selecionar "Denúncias". O atendimento é realizado de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

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