Novo salário mínimo deve injetar aproximadamente R$ 81,7 bilhões na economia ao longo do ano

Jorge Guimarães
O salário mínimo nacional passou a ser de R$ 1.621 desde a última quinta-feira, 1º, um reajuste nominal de 6,79% em relação ao valor anterior de R$ 1.518. Embora o novo piso já esteja em vigor, o pagamento com o valor atualizado será feito a partir de fevereiro, conforme o calendário de salários, aposentadorias e benefícios previdenciários. Em Divinópolis, onde grande parte da população economicamente ativa recebe até um salário mínimo ou tem seus rendimentos atrelados a ele, o aumento é visto com expectativa por trabalhadores, empresários e analistas econômicos locais.
Dados
Segundo o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), cerca de 62 milhões de brasileiros têm renda vinculada ao salário mínimo, e o reajuste deve injetar aproximadamente R$ 81,7 bilhões na economia ao longo do ano, reforçando o consumo e a circulação de renda em diversas regiões do país, incluindo o Centro-Oeste mineiro.
Divinópolis
Em Divinópolis, os números mais recentes mostram um mercado de trabalho formal com desempenho positivo no acumulado do ano. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) revelam que, entre janeiro e maio de 2025, o município registrou 643 novas vagas com carteira assinada, resultado de 7.775 admissões contra 6.132 desligamentos, sinalizando um saldo positivo diante de um cenário econômico que ainda busca recuperação em diversas frentes. O setor de serviços foi o principal responsável pelo crescimento de vagas, seguido pela construção civil e o comércio, em processo de retomada gradual após oscilações ao longo do ano.
Números
Esses números também refletem a estrutura do mercado local. Dados do Censo Demográfico 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que cerca de 27% da população de Divinópolis trabalha com carteira assinada, com um salário médio próximo de dois salários mínimos, posicionando a cidade entre as que têm uma das maiores médias salariais no estado.
Alívio
Para os trabalhadores da cidade, o reajuste do salário mínimo traz um alívio, embora a realidade dos custos de vida permaneça desafiadora. A auxiliar de limpeza Rosângela Aparecida Silva, moradora do bairro prolongamento Bom Pastor, afirma que o aumento permite um pouco mais de fôlego para fechar as contas do mês.
— A gente faz conta de tudo. O aluguel, a luz, a água e a comida sobem todo mês. Esse reajuste não resolve tudo, mas ajuda a comprar um pouco mais no supermercado e pagar alguma conta atrasada — comentou.
O operador de produção Marcos Vinícius Andrade, que trabalha na região industrial de Divinópolis, também vê o reajuste como algo positivo, embora tímido diante das necessidades da família.
— O salário mínimo ainda está longe do que seria o justo, mas qualquer aumento melhora um pouco. Dá para respirar, pagar uma prestação e não ficar tão apertado — disse.
Comércio
No comércio local, a expectativa é de que o reajuste impulsione o consumo, especialmente nos primeiros meses após o pagamento do novo piso salarial. Para o lojista Carlos Eduardo Moreira, que atua no Centro da cidade, o reforço no poder de compra pode dinamizar o fluxo de clientes.
— Divinópolis é uma cidade onde o comércio depende muito do salário mínimo. Quando ele aumenta, as pessoas se sentem mais confiantes para consumir, mesmo que seja aos poucos. Isso ajuda não só a nós, comerciantes, mas a toda a cadeia de serviços — avaliou.
A empresária do setor de alimentação Patrícia Helena Souza destaca que, apesar da perspectiva de aumento do consumo, o reajuste salarial representa um desafio de gestão para os empreendedores.
— Entendemos a importância do aumento para os trabalhadores, mas para o empresário é preciso planejar. Além do salário, temos encargos e custos operacionais. É um desafio absorver parte desse impacto sem repassar tudo para o consumidor — explicou.
Papel estratégico
Na avaliação do economista Lazaro Ribeiro, o reajuste do salário mínimo tem um papel estratégico em cidades como Divinópolis, onde o consumo local é um dos principais motores da economia.
— Quando o salário mínimo sobe, o impacto é quase imediato no comércio de bairro, nos supermercados, farmácias, padarias e serviços. Esse dinheiro circula dentro da própria cidade, fortalecendo a economia local e ajudando na manutenção de empregos — analisou.
Pequenos empreendedores
Segundo Ribeiro, o efeito multiplicador do aumento tende a beneficiar também os pequenos empreendedores, porque o trabalhador que ganha o mínimo destina a maior parte da renda para consumo imediato.
— Esse consumo gera receita para o comércio, aumenta a arrecadação de impostos municipais e contribui para a manutenção dos empregos. Trata-se de um ciclo virtuoso quando bem administrado e acompanhado por políticas públicas adequadas — destacou.
Controle da Inflação
No entanto, o economista alerta para a necessidade de equilíbrio entre o aumento da renda e o controle da inflação.
— É fundamental que o reajuste venha acompanhado de controle dos preços. Se os valores de bens e serviços subirem na mesma proporção, o ganho real do trabalhador acaba sendo corroído. O desafio é preservar o poder de compra sem comprometer a sustentabilidade das empresas — ponderou.
Contas públicas
Outro ponto enfatizado por Lazaro Ribeiro é o impacto nas contas públicas municipais e federais, já que aposentadorias e benefícios assistenciais são corrigidos com base no salário mínimo.
— Há um aumento nas despesas públicas, mas também um retorno via consumo e arrecadação. Em cidades como Divinópolis, esse ciclo pode ser bastante visível, estimulando atividades econômicas diversas — afirmou.
Esperança e planejamento
Para os trabalhadores, o reajuste representa a esperança de dias um pouco menos apertados. Para os empresários, exige ajustes e planejamento.
— Para Divinópolis, o aumento do salário mínimo reforça seu papel como motor do consumo local e elemento fundamental na movimentação da economia, especialmente em um contexto de retomada moderada, mas positiva na geração de empregos e renda no município — finalizou.
Salário mínimo e cesta básica
E ainda segundo o Dieese, a relação entre o salário mínimo e o custo da cesta básica de alimentos, evidencia os limites do poder de compra dos trabalhadores. Em 2025, o salário mínimo foi suficiente para adquirir, em média, 1,75 cesta básica na cidade de São Paulo, tomada como exemplo. Em janeiro de 2026, essa relação melhora, chegando a 1,93 cesta básica por salário mínimo. O número é o maior deste 2019.
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