O último apito

João Carlos Ramos
Em meados do ano de 1966, aconteceu algo que permanecerá para sempre na memória de um povo. Refiro-me ao fim da Estrada de Ferro Bahia e Minas. Ela cruzava as regiões de Teófilo Otoni e Caravelas e seguia até Ponta de Areia, na Bahia. Com o avanço do sistema rodoviário no Brasil, chegou o declínio das ferrovias regionais. O cordão umbilical que unia o sertão mineiro do Vale do Mucuri às águas do Atlântico estava prestes a ser rompido, em nome de uma "pseudoevolução". Naqueles anos dourados, a Maria-Fumaça abria caminho para os moradores da zona rural, que, com sorrisos largos, levavam verduras, frutas, carnes e outros produtos para os mercados, a fim de manter acesa a chama da sobrevivência. Sou testemunha ocular das lágrimas de intensa saudade e dos abraços desesperados dos familiares que partiam rumo a terras desconhecidas.
A desolação tomou conta, principalmente, da cidade de Ladainha, onde nasci e aprendi as primeiras letras. O último trem circulou oficialmente no dia 31 de maio de 1966. A ferrovia havia durado 80 anos e agora estava condenada a se tornar um cemitério de vagões, enquanto seus algozes sorriam diante da desgraça de um povo. A saudade é tanta que nunca mais tive coragem de voltar para beijar o chão da minha terra. Abro um parêntese para dizer: o destino dá voltas que a gente desconhece. No ano seguinte, em 18 de julho, foi vítima de um acidente aéreo o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco.
O destino levou justamente aquele que assinou a lei que decretou o fim da alegria da Estrada de Ferro Bahia e Minas. Segundo os noticiários da época, Castelo Branco havia passado a noite na fazenda da escritora Rachel de Queiroz, em Quixadá. Logo cedo, embarcou no avião Piper Aztec (prefixo PP-ETT), rumo a Fortaleza (CE). Durante o trajeto, a aeronave colidiu com um jato de treinamento Lockheed T-33 da Força Aérea Brasileira. Morreram cinco dos seis ocupantes, incluindo o ex-presidente.
Voltando ao assunto inicial, o município de Ladainha teve seus pulmões arrancados. Todos os funcionários tiveram a opção de escolher seus destinos entre vários municípios brasileiros constantes de uma lista. Meu pai escolheu Divinópolis, a Terra do Divino. O último apito da Maria-Fumaça, até hoje, ecoa nos ouvidos dos saudosos familiares da Bahia e Minas. Quando o maquinista puxou a alavanca do apito pela última vez, na plataforma final, o som não soou como um aviso de partida. Foi um lamento, como o mugido de um boi velho levado ao sacrifício pelas mãos do próprio dono. Um apito longo, estridente e vagaroso ecoou pelas serras, cortou as matas e se perdeu nas ondas do mar. A locomotiva chorava como uma criança abandonada pela mãe.
O grande cantor Milton Nascimento, em parceria com Fernando Brant, compôs a música Ponta de Areia, lançada no álbum Minas (1975), que retrata o luto e a nostalgia pela desativação da referida estrada de ferro. Escrevi sobre essa tristeza assim: Minha terra teve, Maria-Fumaça, que cortava montanhas e o céu sem fim… Hoje, só tem saudade que vem de lá, para fazer morada em mim.
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