Preços dos alimentos mantêm pressão sobre a inflação

Jorge Guimarães
A inflação no Brasil tem despertado atenção entre economistas, empresários e consumidores, embora os índices ainda permaneçam dentro dos parâmetros estabelecidos pelas autoridades econômicas. Após iniciar o ano com uma alta de 0,33% em janeiro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, segue dentro da faixa da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e pelo Banco Central, cuja projeção para o encerramento do ano é de 3,95%.
Números
A inflação brasileira apresentou desaceleração em maio, trazendo um sinal moderadamente positivo para consumidores e empresários. De acordo com o IPCA, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última sexta-feira, 12, a variação foi de 0,58%, ficando 0,09 ponto percentual abaixo da taxa de 0,67% registrada em abril.
Apesar da redução no ritmo de crescimento dos preços em relação ao mês anterior, os números mostram que a inflação ainda segue em um patamar que exige atenção. No acumulado do ano, o IPCA já registra alta de 3,20%. Considerando os últimos 12 meses, o índice alcançou 4,72%, superando os 4,39% observados no período imediatamente anterior.
A comparação com maio do ano passado também evidencia uma pressão maior sobre os preços. Em maio de 2025, a inflação havia sido de apenas 0,26%, percentual significativamente inferior ao registrado neste ano.
Para especialistas, a desaceleração de maio é um indicativo positivo, mas ainda insuficiente para afastar as preocupações com o comportamento dos preços ao longo dos próximos meses.
— O cenário reforça a necessidade de acompanhamento constante dos indicadores econômicos, uma vez que a inflação impacta diretamente o orçamento das famílias, o consumo e o planejamento das empresas. Mesmo com a queda na taxa mensal, o acumulado dos últimos 12 meses mostra que o desafio de manter a inflação sob controle permanece no radar das autoridades econômicas e do mercado, especialmente diante das expectativas para o restante do ano — avaliou o economista Leandro Maia.
Fatores
Estes primeiros meses do ano estão sendo fortemente impactado por fatores externos e internos que contribuíram tecnicamente para o aumento da inflação no Brasil. No cenário internacional, o início do conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, elevou o nível de incerteza nos mercados globais. Esse contexto geopolítico provocou a valorização do dólar frente a outras moedas, incluindo o real, o que encarece produtos importados e pressiona os custos de produção no país.
Além disso, a tensão na região afetou diretamente o mercado de energia, impulsionando os preços internacionais do petróleo. Como consequência, houve aumento no custo dos combustíveis no Brasil, impactando toda uma cadeia produtiva de diversos setores, o que acaba sendo repassado ao consumidor final.
— A combinação de fatores externos, como o conflito internacional e a alta do petróleo, com elementos internos, como as condições climáticas adversas, explica a aceleração da inflação observada em março, evidenciando a sensibilidade da economia brasileira a eventos globais e ambientais — exemplificou o economista.
Índices
Os preços dos alimentos continuaram sendo os principais responsáveis pela inflação registrada em maio. De acordo com os dados, o grupo alimentação e bebidas apresentou a maior variação do mês, com alta de 1,33%, impactando diretamente o orçamento das famílias brasileiras.
Outro destaque foi o grupo habitação, que registrou aumento de 1,22%, refletindo reajustes em itens essenciais para o dia a dia dos consumidores. Na sequência aparece o grupo saúde e cuidados pessoais, com elevação de 0,90%, demonstrando que despesas relacionadas ao bem-estar e aos cuidados pessoais também contribuíram para a pressão inflacionária do período.
Os demais grupos pesquisados apresentaram comportamentos mais moderados. O setor de vestuário registrou alta de 0,62%, enquanto outras categorias tiveram variações menores. O único grupo a apresentar queda nos preços foi o de transportes, que teve retração de 0,46%, ajudando a amenizar parcialmente o impacto da inflação no mês.
— Os números evidenciam que os gastos essenciais continuam pesando mais no bolso dos consumidores, especialmente em alimentação e moradia, setores que costumam ter grande participação no orçamento das famílias. Por isso, mesmo com a desaceleração da inflação geral em maio, muitos brasileiros ainda percebem no dia a dia o aumento dos custos em produtos e serviços básicos — pontuou o economista.
Alimentação no domicílio
A alta dos preços dos alimentos foi um dos principais fatores que pressionaram a inflação em maio, especialmente dentro dos lares brasileiros. Segundo os levantamentos, a alimentação no domicílio registrou aumento de 1,65%, impulsionada principalmente pelas expressivas altas de alguns produtos amplamente consumidos pela população.
Entre os itens que mais subiram estão a batata-inglesa, com alta de 44,69%, seguida pelo tomate (20,62%) e pela cebola (16,80%). As carnes também apresentaram aumento, com variação de 1,39%.
Por outro lado, alguns produtos ajudaram a conter uma pressão ainda maior sobre os preços. O café moído registrou queda de 2,38%, enquanto as frutas ficaram, em média, 0,70% mais baratas no período.
Já para quem opta por se alimentar fora de casa, os reajustes foram mais moderados. A alimentação fora do domicílio apresentou alta de 0,49% em maio. Os preços dos lanches desaceleraram, passando de 0,71% em abril para 0,49% em maio, enquanto as refeições tiveram variação de 0,51%, ligeiramente abaixo dos 0,54% registrados no mês anterior.
Consumidor
O aumento dos preços continua sendo um dos principais desafios para as famílias brasileiras.
A auxiliar administrativa Marcilene Lopes contou que passou a acompanhar com mais atenção os índices econômicos para entender melhor as mudanças no orçamento familiar.
— Quando a inflação sobe, a gente sente imediatamente no supermercado. Alguns produtos ficam mais caros de uma semana para outra e isso obriga a gente a pesquisar mais e até trocar marcas para economizar — afirmou.
O aposentado José Carlos Pereira destacou que o cuidado com os gastos se tornou uma rotina.
— A gente percebe a diferença principalmente na alimentação. Alguns produtos ficaram mais caros e, por isso, precisamos substituir marcas e escolher melhor o que levar para casa. O importante é não comprometer o orçamento — comentou.
Já a dona de casa Patrícia Mendes explicou que a família tem buscado alternativas para economizar sem abrir mão da qualidade.
— Estamos aproveitando ofertas, comprando frutas e legumes da estação e planejando as refeições da semana. Isso ajuda bastante a evitar desperdícios e gastar além do necessário — relatou.
Supermercados
No setor supermercadista, a movimentação dos consumidores reflete essa nova realidade. Segundo o gerente de supermercados Sérgio Antônio de Oliveira, os clientes estão mais atentos aos preços e cada vez mais criteriosos nas decisões de compra.
— Percebemos que o consumidor está pesquisando mais, comparando valores e buscando produtos que ofereçam melhor custo-benefício. As promoções ganham ainda mais importância nesse cenário, porque ajudam as famílias a manter o poder de compra — explicou.
O gerente ressaltou que o planejamento financeiro tem sido fundamental para enfrentar o momento.
— O consumidor está mais consciente e organizado. Muitos chegam ao supermercado com lista pronta e orçamento definido. Esse comportamento demonstra uma preocupação crescente em administrar bem os recursos e garantir o atendimento das necessidades básicas da família — concluiu.
Pesquisas
A diarista Elza Santos observou que a ida ao supermercado continua exigindo pesquisa.
— Alguns produtos estão mais estáveis, mas ainda tem coisa que sobe sem aviso. Eu sempre comparo preços antes de fechar a compra — relatou.
De acordo com Leandro Maia, essa percepção mista é comum em momentos de inflação moderada.
— O índice geral pode estar controlado, mas cada família sente de forma diferente, dependendo do seu padrão de consumo. Quem gasta mais com combustível, por exemplo, pode ter a sensação de inflação mais alta do que indica o IPCA. Mas a pesquisa ainda continua sendo a maior arma do consumidor — explicou.
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