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Polícia

‘Sonho de infância’: Lúcia Helena se torna a primeira mulher no comando da 7º RPM

Nova liderança do batalhão leva ao posto mais alto da unidade uma trajetória construída entre sonhos de infância e dedicação

Por Jonny Reisle · Redação· 6 min de leitura
‘Sonho de infância’: Lúcia Helena se torna a primeira mulher no comando da 7º RPM

Antes de vestir a farda, comandar batalhões e alcançar o posto de coronel da Polícia Militar de Minas Gerais, Lúcia Helena Pinto Alvim da Silva era uma menina que brincava de ser policial na zona rural de Santos Dumont, na Zona da Mata mineira. Filha de um sitiante e de uma dona de casa, cresceu admirando as patrulhas que apareciam de vez em quando na comunidade onde vivia. Para aquela criança, a presença dos militares representava mais do que uma profissão: era a imagem de um Estado que chegava até as pessoas, mesmo nos lugares mais distantes.

Rosto de um marco

Décadas depois, o sonho de infância ganha uma dimensão que ultrapassa a realização pessoal. Nesta quarta-feira, 28, a coronel será oficialmente apresentada como comandante da 7ª Região da Polícia Militar (7ª RPM), em solenidade na Faculdade Anhanguera, em Divinópolis. Ela é a primeira mulher a ocupar o posto na história da unidade, responsável pela coordenação do policiamento em 50 municípios da região. 

Mais do que uma alteração na hierarquia militar, a chegada de Lúcia Helena ao comando regional simboliza o reconhecimento de uma trajetória profissional construída ao longo de aproximadamente 27 anos de serviço. Também coloca uma mulher à frente de uma estrutura estratégica da segurança pública, em um ambiente historicamente marcado pela predominância masculina. Na cerimônia, Lúcia estará ao lado de Cleide Barcelos, mulher comandante da Polícia Militar de Minas Gerais, pioneira na presença feminina no topo do estado. 

Interior

A história de Lúcia Helena começa longe dos gabinetes e das grandes estruturas policiais. Na comunidade de São João da Serra, na zona rural de Santos Dumont, a menina observava a chegada das patrulhas e alimentava o desejo de fazer parte daquela realidade.

A admiração pela corporação acompanhou a infância e a adolescência. Quando concluiu o ensino médio, decidiu transformar a vontade em profissão. Prestou o concurso para a Polícia Militar e seguiu para Belo Horizonte, onde iniciou uma trajetória que a levaria por diferentes setores da instituição.

A vida profissional foi marcada por formação, cursos, concursos internos e experiências em diferentes áreas. O caminho exigiu preparo e persistência até que o sonho de chegar ao comando se tornasse uma possibilidade concreta.

Ao ingressar no Curso de Formação de Oficiais, ela já estabelecia objetivos para a carreira. A meta inicial era alcançar o posto de tenente-coronel e comandar um batalhão. A promoção seguinte, porém, trouxe uma surpresa ainda maior.

A promoção e a designação para Divinópolis abriram um novo capítulo. A oficial deixa de responder por uma unidade específica para assumir uma estrutura regional que exige visão estratégica, articulação entre diferentes comandos e conhecimento das particularidades de dezenas de municípios.

Experiência

Antes de chegar à região, Lúcia Helena comandou o 66º Batalhão da Polícia Militar, sediado em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A unidade tem atuação intensamente operacional e ofereceu à coronel a oportunidade de colocar em prática conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação.

A experiência, segundo ela, foi decisiva para compreender ainda mais de perto as necessidades da tropa e a realidade cotidiana do policiamento.

— É um batalhão intenso, de militares muito guerreiros. E foi um presente também, porque ali tive muitos aprendizados, vi uma realidade prática da parte operacional. Foi primordial para a minha carreira ter passado por lá — afirma.

A trajetória também inclui funções ligadas à formação de policiais, ao Estado-Maior da PM e à Corregedoria, na área jurídica. Essa combinação de experiências administrativas, técnicas e operacionais contribuiu para a preparação para o novo cargo.

Valêndias de um líder

Ao recordar a passagem pelo batalhão, Lúcia destaca que a liderança não se constrói apenas com conhecimento institucional, mas também com a capacidade de ouvir, aprender e trabalhar com as pessoas.

A experiência à frente de uma unidade operacional também significou assumir responsabilidades em um ambiente predominantemente masculino. 

— O trabalho e a competência precisam prevalecer, sem que as diferenças individuais sejam vistas como obstáculos. Somos todos iguais, cada um tem suas habilidades, mas acredito que também temos muito a contribuir — afirma.

A declaração ganha um significado especial diante do momento que a 7ª RPM vive. Ao assumir o comando, Lúcia não apenas inaugura uma nova etapa profissional, mas também passa a ocupar um espaço que, até então, nunca havia sido exercido por uma mulher na história da região.

Diferentes realidades

A 7ª Região da Polícia Militar reúne sete unidades e coordena o policiamento de 50 municípios do Centro-Oeste mineiro, com demandas e características próprias. A abrangência territorial torna o comando um desafio que exige planejamento, integração e capacidade de adaptar as diretrizes institucionais às necessidades locais.

A coronel já está em Divinópolis desde setembro e assumiu formalmente as atribuições em 2 de outubro. Desde então, tem percorrido cidades da região, conversado com comandantes e buscado conhecer as particularidades de cada área. A solenidade desta quarta-feira marca a passagem formal de comando diante das autoridades e da tropa.

Para ela, compreender o território é uma etapa indispensável antes de estabelecer prioridades e cobrar resultados.

— Primeiro a gente tem que conhecer, ver a realidade. Então, agora eu quero conhecer no terreno, porque tropa da PM é em campo, é terreno. Então, a gente precisa dominar o terreno, conhecer, até para ver se aquela diretriz é plausível, é executável, se ela é possível ser cumprida ali — explica.

O processo de adaptação envolve conhecer não apenas os números e as estruturas administrativas, mas também as condições de trabalho dos policiais, as necessidades logísticas e as particularidades das comunidades atendidas.

— Vai demorar um pouco, mas vou acelerar, porque a gente tem essa vontade de já conseguir, o mais rápido possível, dominar e poder caminhar juntos uns com os outros aqui — afirma.

Uma nova casa

A chegada a Divinópolis também tem um significado afetivo. Natural do interior de Minas Gerais, Lúcia Helena diz reconhecer na região características que remetem à sua origem, como o acolhimento, o jeito de falar e a proximidade entre as pessoas.

— É uma honra ser designada para Divinópolis, porque me lembra muito a minha terra, o pessoal do interior, o jeito, a percepção. Estou muito satisfeita e animada para conhecer mais da cidade — conta.

Nos primeiros dias, ela já participou de eventos e encontros com integrantes da comunidade, incluindo cafés com policiais veteranos. As experiências, segundo a coronel, ajudaram a perceber a receptividade dos moradores.

A mudança não será apenas profissional. Lúcia afirma que pretende morar em Divinópolis e trazer a família para a cidade, onde ficará sediado o comando regional. 

A frase revela uma dimensão que nem sempre aparece nos registros oficiais das solenidades: por trás da patente e das responsabilidades institucionais, existe alguém que também chega com expectativas, vínculos familiares e o desejo de pertencer ao lugar onde vai trabalhar.

Abertura de caminhos

A presença de uma mulher no comando da 7ª RPM não elimina os desafios da segurança pública nem encerra a discussão sobre a participação feminina em posições de liderança. Representa, contudo, uma conquista concreta em uma instituição na qual alcançar os postos mais altos exige anos de formação, experiência e dedicação.

Para Lúcia Helena, a oportunidade também permite imprimir à gestão a contribuição de sua trajetória, sem perder de vista os valores coletivos da corporação. O desafio será transformar a experiência acumulada em resultados para os municípios sob sua responsabilidade.

— Que Deus nos abençoe e nos guarde para fazer um excelente trabalho, porque o que mais gostamos de fazer dentro da instituição é trabalhar e ver o resultado desse fruto do trabalho — finaliza. 


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