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Vale tudo para aparecer?

Vale tudo para aparecer?

O que está valendo para ganhar curtidas, engajamento e espaço no tabuleiro eleitoral? Até onde um político está disposto a ir para se manter relevante antes mesmo de a campanha começar? No Brasil de hoje, a resposta parece desconfortável: vale quase tudo. Inclusive reduzir o debate público a frases prontas, rótulos fáceis e espetáculos travestidos de confronto político.

O episódio envolvendo o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, é emblemático. Pré-candidato à Presidência da República, Zema escolheu não um fórum institucional, não um debate qualificado, não um espaço de construção coletiva, mas um vídeo no YouTube no formato “um contra trinta”. Um ringue simbólico, feito sob medida para viralizar, provocar e dividir. O resultado? Mais de 250 mil visualizações em poucas horas. Missão cumprida no algoritmo.

Mas a que custo? As cinco afirmações escolhidas por Zema: “a esquerda defende bandido”, “a esquerda quebrou o Brasil”, “a esquerda nunca deu certo”, “a esquerda é contra a religião” e “o MST é terrorista”, não foram pensadas para gerar reflexão. Foram desenhadas para inflamar, simplificar e empobrecer o debate. São slogans, não argumentos. São gatilhos emocionais, não diagnósticos sérios sobre os problemas do país.

Quando confrontado com dados sobre criminalidade em Minas, expansão de facções e aumento da letalidade policial, o governador respondeu com gráficos genéricos, acusações ao governo federal e a velha estratégia de negar a complexidade. Quando provocado sobre economia, ficou sem palavras diante de uma explicação básica sobre investimento público e desenvolvimento. O espetáculo, ali, começou a ruir.

Ainda assim, o estrago já estava feito. Porque o objetivo nunca foi debater. Foi performar. Foi criar um recorte fácil, um “nós contra eles”, uma caricatura que rende likes, compartilhamentos e manchetes. A política convertida em entretenimento raso, onde vencer não é convencer, mas viralizar.

A crítica da deputada Lohanna França escancara outra contradição: enquanto o governador encontra tempo para vídeos de “lacração”, falta às reuniões com o presidente, se ausenta de debates estratégicos sobre economia, ignora discussões internacionais e deixa vazia a cadeira que deveria ocupar como chefe do Executivo mineiro. A pergunta que fica é simples e incômoda: governar dá menos retorno do que polemizar?

Zema não é um caso isolado. Ele é sintoma. Sintoma de uma política cada vez mais refém das redes sociais, onde a superficialidade é recompensada e a complexidade punida. Onde frases curtas vencem políticas públicas. Onde o conflito rende mais que a solução.

Se tudo vira espetáculo, o debate perde profundidade. Se tudo vira guerra cultural, o país perde tempo. E se vale tudo para aparecer, quem paga a conta é a democracia. A eleição ainda nem começou. Mas o jogo já está perigoso.

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