Vítima sofreu agressões por 15 anos antes de ser morta pelo companheiro

Elian Ozéias
Após 15 anos de violência doméstica silenciosa, uma mulher de 39 anos foi morta pelo companheiro, de 51 anos, na comunidade rural do Choro, em Divinópolis. O crime ocorreu no dia 15 de agosto deste ano, quando a vítima foi brutalmente agredida com um banco de madeira. Ela foi socorrida com vida, mas com diveros ferimentos na cabeça, morreu no dia 9 de setembro. O inquérito foi concluído pela Polícia Civil (PC) nesta semana, com o indiciamento do autor por feminicídio consumado.
Investigações
De acordo com a Delegada Francielly Sifuentes, responsável pela investigação, a agressão foi o desfecho de uma longa história de abusos vividos pela mulher e suas três filhas. O casal convivia há 15 anos, período marcado por sucessivas agressões físicas e psicológicas.
— Segundo relatos dos familiares, ela sempre sofreu violência doméstica, tanto ela quanto as filhas. Essa foi uma vítima que morreu em silêncio. Durante todos esses anos, ela nunca procurou a delegacia para denunciar o agressor — lamentou a delegada.
Criança presenciou
No dia do crime, uma das filhas do casal, de apenas 8 anos, presenciou parte das agressões e chegou a ser orientada pela própria mãe a pedir socorro.
— A criança saiu correndo até os vizinhos. Quando retornou, a mãe já estava caída na cozinha, com um grande ferimento na cabeça — relatou Sifuentes. A equipe do Samu foi acionada e prestou os primeiros socorros à vítima, que foi encaminhada ao hospital em estado grave.
A Polícia Militar iniciou as buscas pelo autor logo após o crime, mas ele conseguiu fugir. Em 3 de setembro, a Justiça decretou a prisão preventiva do suspeito. Mesmo com diligências realizadas pelas polícias Civil e Militar, o homem ainda não foi localizado.
— Concluímos o inquérito com vastos elementos de autoria e materialidade. Agora, seguimos na tentativa de localizá-lo. Tivemos autorização judicial para divulgar sua imagem e pedimos o apoio da população para encontrá-lo — afirmou a delegada.
Histórico criminal
O agressor já possui um extenso histórico criminal. Além da violência contra a companheira e as filhas, ele responde por tentativa de homicídio contra uma ex-companheira e por crimes de roubo. Mesmo com esse histórico, ele estava em liberdade. O caso mais recente levou a sua inclusão na lista de procurados da Justiça em Minas Gerais.
Para a Polícia Civil, o desfecho trágico poderia ter sido evitado caso a vítima tivesse denunciado o agressor antes. No entanto, o medo e o isolamento vividos por ela ao longo dos anos impediram qualquer ação formal.
— Infelizmente, ela não procurou ajuda. É um caso que teve grande repercussão, e agora esperamos encerrar esse ciclo com a prisão do autor — reforçou Francielly Sifuentes.
Divinópolis
O caso não é isolado. Em Divinópolis, a violência doméstica apresenta tendência de crescimento. Segundo dados da Polícia Civil, houve um aumento de 15% nos registros de agressões contra mulheres no primeiro semestre de 2025. Foram 918 ocorrências até junho, contra 796 no mesmo período de 2024, uma média de cinco mulheres agredidas por dia.
Desde 2019, o município registrou 16 casos de feminicídio, sendo 12 mortes consumadas e quatro tentativas. Apenas em 2025, três mulheres foram assassinadas e outras seis escaparam de tentativas de homicídio praticadas por seus companheiros ou ex-companheiros.
Entre os casos mais recentes está o da jovem Dhandara Kellen Ferreira, de 18 anos, encontrada morta em um matagal após ficar desaparecida por três dias. Dhandara havia retomado os estudos por meio do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e sonhava com um futuro melhor.
Apoio é essencial
Com o autor do feminicídio da comunidade do Choro ainda foragido, a Polícia Civil reforça a importância da colaboração da população. Informações sobre o paradeiro do suspeito podem ser repassadas de forma anônima pelo Disque Denúncia 181 ou pelo telefone 190.
— Queremos encerrar esse caso com a chave de ouro: a prisão desse homem. Mas, para isso, precisamos do apoio da população — concluiu a delegada.
A Delegacia de Atendimento à Mulher reforça ainda que qualquer vítima de violência doméstica ou testemunha pode procurar ajuda. O silêncio, como mostra esse caso, pode ser fatal.
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