A arte de perder eleições

Coluna de Fernando Gabeira
Fernando Gabeira
Eu já deveria ter esquecido as eleições nos Estados Unidos. Torci por Kamala Harris, perdi. Perdi eleições municipais, estaduais e federais. Uma fora do Brasil não é nada. Se houver algo em Marte, farei minha aposta.
A energia inicial, milhões de dólares arrecadados entre pequenos doadores, me impressionou. Pensei que a alegria da campanha e seu olhar para o futuro bastariam. Hoje, percebo que havia uma raiva e uma frustração que o otimismo superficial não resolve. Trump interpretou bem, venceu.
Sempre tiro o chapéu para os vitoriosos e respeito às decisões majoritárias. Mas esse é meu limite. Nem sempre as considero acertadas apenas por serem majoritárias. Alemães e italianos já se equivocaram, com mais entusiasmo.
Não consigo entender como racional uma proposta de deportação em massa. Não só porque será difícil e mais caro substituir essa mão de obra com americanos natos. A ideia de Trump de expulsar imigrantes e mesmo a de Giorgia Meloni, de confina-los num outro país, não resolvem.
Tangidos por fome, guerras e desastres naturais, milhões continuarão a arriscar suas vidas em busca de oportunidades. O capitalismo garante liberdade para o fluxo de capitais e mercadorias, mas bloqueia a mão de obra. É uma negação de suas bases econômicas. Veremos parte da humanidade tentando escapar; outra, de certa forma, lançando-a ao mar.
Vivemos o ano mais quente da História. A temperatura média já é de 1,5 °C mais alta que a do período pré-industrial. Por que negar tantas evidências, sobretudo num país atingido por furacões cada vez mais fortes, do Katrina ao Milton? Nesse contexto, o slogan drill baby, drill (perfure, querido, perfure) — cavar para buscar petróleo entre as pedras — é uma forma simbólica de cavar a própria sepultura.
A própria ideia de taxar importações, de se fechar, de certa maneira, para o comércio internacional parece sedutora, supõe uma idade de ouro da indústria americana. Mas, na verdade, pode encarecer e dificultar a vida dos americanos. É um tipo de visão que favorece o avanço do grande competidor que é a China. Os chineses se prepararam com visão de longo prazo.
Darei apenas um exemplo: em 2007, eles compraram uma montanha no Peru, o Monte Toromocho. Ele continha 2 bilhões de toneladas de cobre. Nesta semana, a China inaugura um porto gigantesco a 80 quilômetros de Lima. Eles se preparam para dominar as commodities desde o início do século e agora constroem a Nova Rota da Seda. Se abstrairmos o regime político autoritário, os chineses parecem incluir o planeta em sua estratégia, enquanto os Estados Unidos tendem a se fechar numa política isolacionista.
Tudo isso ainda são impressões iniciais. Teremos ainda um longo caminho, e a imprensa americana será uma espécie de termômetro para medir a experiência renovada de Trump. É uma imprensa que, de modo geral, também apostou em Kamala Harris e vive sob grande pressão da direita. Ela pode ter cometido erros, subestimando a frustração popular, mas ainda é uma indústria que gasta parte do dinheiro apurando e confirmando a veracidade das informações. Por mais que seja atacada, a verdade é que é explorada pelas plataformas eletrônicas, que reproduzem seu trabalho sem remunerá-lo.
As suposições de que é possível informar sem apurar e confirmar, de que há uma liberdade ilimitada e de que realidades paralelas têm o mesmo valor dos fatos verificáveis servem apenas para aumentar a confusão e turvar o debate político.
Assim como na pandemia, abre-se um período em que o papel da imprensa americana será essencial ao lado da ciência, que se defrontam com uma grande onda de negacionismo, das mudanças climáticas à importância das vacinas.
Em síntese, a derrota sempre nos leva à humildade de reconhecer erros, reformular caminhos. Nem sempre os vencedores detêm outra verdade, além da verdade de que são os vencedores.
Fernando Gabeira*– é escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro. Atualmente na GloboNews, como comentarista político. Foi candidato ao Governo do Rio de Janeiro. Articulista para, entre outros veículos, O Estado de S. Paulo e O Globo, onde escreve às segundas. Tem programa na GloboNews. Lançou o podcast “Fala, Gabeira!” ( YouTube)
Leia também
Vereadores indicam quase R$ 20 milhões em emendas para 2025
Veja lista de aprovados do concurso público da Prefeitura
Câmara apresenta Audiência Pública da LOA para 2025
Governador Zema define novo chefe do Ministério Público
PF indicia Bolsonaro e mais 36 pessoas por tentativa de golpe de Estado
Após quase dez anos, Câmara regulamenta mercado de carbono
Mais recentes
Do nosso arquivo
Vereador Washington Moreira cobra explicações sobre fila de espera para colonoscopia no SUS
Câmara aprova projeto de Matheus Dias que cria programa de reinserção para dependentes químicos
Senadores cobram ministro por respostas a fraudes contra aposentados do INSS
Governo de Minas e multinacional firmam acordo de R$ 100 milhões
Veja tudo o que publicamos em novembro de 2024
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…




