A força do diálogo: construindo soluções para os nossos conflitos

UNA
Viver em sociedade significa conviver com diferenças, e isso é inevitável. As pessoas possuem opiniões, interesses, necessidades e expectativas distintas e, naturalmente, os conflitos fazem parte das relações humanas. O problema não está necessariamente na existência do conflito, mas na maneira como escolhemos enfrentá-lo. Nesse contexto, a conciliação e a mediação apresentam-se como caminhos para transformar situações de confronto em oportunidades de diálogo, compreensão e construção conjunta de soluções, a partir do equilíbrio de posicionamento dos interessados.
Na maioria das oportunidades, quando surge o conflito entre as pessoas, estas buscam a justiça como forma de solucioná-lo. A ideia de justiça sempre esteve fortemente associada à figura do juiz e à solução imposta por ele, através de uma decisão judicial. O processo tradicional continua sendo essencial para a proteção de direitos, especialmente quando não é possível alcançar um acordo. Entretanto, nem todo conflito precisa terminar com um vencedor e um perdedor. Em muitas situações, as próprias pessoas envolvidas podem participar da construção de uma solução que atenda aos seus interesses e preserve, tanto quanto possível, as relações existentes.
É justamente nessa perspectiva que se inserem a conciliação e a mediação. A lei determina que a conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos sejam estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial. Há, portanto, o reconhecimento de que a pacificação social não depende exclusivamente de uma decisão do juiz, mas também da capacidade das pessoas de dialogarem e encontrarem soluções consensuais.
Os mecanismos utilizados para resolver conflitos pacificamente representam uma mudança de cultura. A cultura da paz não significa simplesmente evitar conflitos, silenciar diante das injustiças ou aceitar qualquer condição para alcançar um acordo. Significa compreender que o diálogo, o respeito e a cooperação podem ser instrumentos de transformação. Resolver pacificamente um conflito não é abrir mão de direitos, mas exercer a autonomia de buscar, com responsabilidade, uma solução construída pelas próprias pessoas envolvidas.
Essa perspectiva também contribui para uma Justiça mais humana. Quando alguém é ouvido, consegue expressar suas razões e participa da construção da solução, deixa de ser apenas um sujeito que espera uma resposta do Estado e passa a assumir papel ativo na resolução de sua própria controvérsia. O acordo, quando livre, consciente e juridicamente válido, pode representar não apenas o encerramento de um processo, mas o início de uma nova forma de relacionamento.
É importante lembrar que, por trás de cada processo judicial, existem pessoas, histórias e sentimentos que muitas vezes não aparecem nos documentos. Uma discussão entre familiares, um problema entre vizinhos, uma divergência decorrente de um contrato ou até mesmo um conflito no ambiente de trabalho pode gerar mágoas que se prolongam por anos.
A conciliação e a mediação permitem olhar para essas situações de maneira diferente, buscando não apenas encerrar a disputa, mas compreender o que levou as pessoas até aquele ponto. Não visualizando o conflito em si como um problema invencível, mas como uma oportunidade de solução e interação entre as pessoas.
Quando existe espaço para falar e, principalmente, para ouvir, muitas vezes descobrem-se possibilidades que não seriam encontradas em uma discussão baseada apenas em acusações. O conciliador e o mediador não decidem pelas partes; auxiliam na construção de um ambiente em que elas possam reconhecer seus interesses, expor suas necessidades e encontrar, juntas, uma solução possível.
Trata-se de despertar nas pessoas o reconhecimento de que têm uma parcela importante da responsabilidade pela resolução de seus próprios problemas. Isso não significa ignorar a lei ou abrir mão de direitos. Ao contrário, significa utilizar os instrumentos oferecidos pelo próprio sistema de Justiça para alcançar uma solução legítima, consciente e respeitosa.
Em uma sociedade marcada por tantas divergências, aprender a conversar sobre aquilo que nos separa pode ser um passo importante para reconstruir relações e fortalecer a convivência. A paz, nesse sentido, não nasce apenas das grandes decisões ou das políticas públicas, mas também das pequenas escolhas feitas diariamente: ouvir antes de julgar, falar sem ofender, reconhecer o outro e procurar uma saída antes que o conflito se transforme em uma ruptura definitiva.
É nessa dimensão humana que a conciliação e a mediação encontram sua maior importância, aproximando o Direito da realidade das pessoas e mostrando que fazer Justiça também pode significar ajudar alguém a encontrar um caminho para seguir em frente.
Mas diante de tudo isso como resolver o conflito? Nos dias atuais contamos com o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc). Lá todos os cidadãos podem levar o seu conflito com a finalidade de resolvê-lo. Após o atendimento do serventuário, será marcada uma sessão de conciliação em que comparecendo as partes, o conciliador agirá facilitando o diálogo, apresentando estratégias que poderão ser inspiração para que as próprias partes cheguem a um acordo. De forma pacífica e eficiente.
Trata-se, portanto, de um atendimento gratuito disponibilizado pelo Tribunal de Justiça que oportuniza às pessoas a resolverem seus conflitos que envolvam direitos disponíveis.
Adotar a cultura da paz é reconhecer que a Justiça também pode ser construída pelo diálogo. É compreender que, diante de um conflito, nem sempre precisamos perguntar quem venceu, mas o que podemos fazer para que todos possam seguir adiante com dignidade. Nesse sentido, conciliar e mediar não são apenas formas alternativas de solucionar conflitos: são expressões de uma sociedade que escolhe o diálogo em lugar do confronto e a construção coletiva em lugar da imposição.
Surgido o conflito, procure o Cejusc de sua cidade, lá será orientado (a) e poderá, através da conciliação ou mediação, resolver pacificamente o que lhe aflige.
Pauliana Dias

Mestre em Direito Processual, Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, sócia-proprietária da Câmara de Mediação, Conciliação e Arbitragem - MASC, Advogada.
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