A problemática da mala

Augusto Fidelis
Ontem à noite, caminhava eu pela avenida 1º de Junho, na maior pureza d’alma, quando fui abordado por uma pessoa ávida por falar de política. Desejava saber a minha opinião a respeito da mala. Daí, perguntei: que mala? Ora, para eu desenvolver uma tese com este teor, tenho necessidade de fazer um recorte muito minucioso do assunto. A língua de um povo é dinâmica, algo vivo e, com o tempo, os vocábulos podem mudar de sentido ou simplesmente agregar outros.
Pego como exemplo a palavra “gato”. No meu tempo de criança, gato era apenas um animal doméstico, de quatro patas, da família dos Felídeos. Depois, o termo passou a designar um rapaz de boa aparência; hoje, gato é também furto de energia elétrica. Quando se diz “cachorro”, pode estar se falando não apenas de um cão, mas de um ser humano de caráter duvidoso.
É por isso que estou muito preocupado com a problemática da mala. O que seria uma mala? O Michaellis diz que se trata de um saco de couro ou pano, ordinariamente fechado com cadeado; ou uma caixa de madeira revestida de couro ou lona, destinada geralmente ao transporte de roupas em viagem. A Grande Enciclopédia Larousse Cultural lança mais dúvida sobre a definição do objeto em estudo, porque fala em mala sem alça, em arrastar a mala, em ir ao fundo da mala e até em descer a mala.
Recorri também ao Dicionário de Termos Gays e encontrei um significado totalmente adverso para o vocábulo mala. Com isso, acabo de comprovar a tese de que, em questão de mala, depende de quem a vê. Não é segredo para ninguém: em Brasília todo deputado, se do sexo masculino, tem uma mala. Com dinheiro ou sem dinheiro, se grande ou pequena, isso não importa. O que faz a diferença é o uso que se faz da mala, se para carregar roupas ou outros pertences. Para ver uma mala cheia, há quem pague até mensalão.
Aliás, ao tratar deste assunto, a gente precisa ter muita cautela. Se eu digo: vi a mala de fulano, isto significa aguçar a curiosidade alheia. Logo os enxeridos vão querer saber em que circunstância a mala estava à mostra, se cheia ou vazia, se o dinheiro era real, dólar ou euro. Com um agravante: há pessoas desmioladas que avançam na mala dos outros, sem nenhuma cerimônia, o que gera, em certos casos, muita confusão. Em nome da boa convivência e do combate à corrupção, ninguém deve pegar a mala de outro sem a devida permissão.
O que acontece no momento em Brasília é um caso típico: alguém viu alguém mostrar a mala em lugar indevido e denunciou que apenas um grupinho de privilegiados apreciava uma mala enorme, cheia de dinheiro. Ao notar o frege, esconderam a mala. Honestamente, não sei aonde vamos parar com essa roubalheira.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
