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Augusto Ambrosio Fidelis

Alô, Divinópolis, cheguei!

Por Bruno
Alô, Divinópolis, cheguei!

Daí, me perguntaram numa entrevista: “qual é a sua cidade”? Então respondi: ora, minha cidade é Divinópolis, a Princesa do Oeste. Logo retrucaram: “mas você não é daqui!”. Na tréplica, declarei: eu não era, mas agora eu sou. Aqui cheguei, me instalei e me apossei deste torrão bendito, que me faz tão feliz. A minha casa é a cidade, cada divinopolitano é um irmão querido, para quem rogo a Deus diuturnamente toda sorte de bênção.

Bem sei que quem remexe demais o passado é porque já não tem perspectiva de futuro, diriam os antigos, porque o passado passou e o futuro é uma possibilidade, então a vida se vive no presente. Mas, em verdade, a minha Divinópolis verdadeira é aquela que encontrei há 50 anos, cujas pessoas e eventos me marcaram profundamente. Estou ciente de que é perda de tempo revisitar com frequência o passado, mas agora é um momento propício para remexer a minha caixinha de lembranças, pois, afinal, Divinópolis está em festa, celebrando seus 114 anos.

Mas quando eu cheguei aqui, em 25 de maio de 1976, para trabalhar na Companhia Siderúrgica Pains, o município também celebrava aniversário, mas apenas 64 anos. Ora, a cidade que me marcou foi aquela que me acolheu. As pessoas eram mais amigas, mais solícitas, raros eram os casos de violência. Ainda se podia deixar a porta da sala aberta, sentar-se nas calçadas, brincar no meio da rua.

Eu morava num quartinho de pensão, na rua Rio de Janeiro, justamente no local onde hoje se ergue o JB Palace Hotel. Apesar do dinheiro minguado, dava-me ao luxo de tomar café na Padaria Divinópolis, frequentar a Casa da Manteiga, sentar-me na porta do Vaca na Brasa, ir ao Salão Paroquial de Santo Antônio, Sambão, Mangueira, aos cines Arte, Divinópolis e Alhambra, não perdia a sessão das dez no Cine Popular.

Tinha lugar cativo no Santuário de Santo Antônio, na missa das 19 horas, aos domingos. Sentava-me sempre ao lado das irmãs Rosalina e Maria Altina e estas se tornaram minhas amigas, às quais visitei enquanto viveram. Na Sexta-feira Santa, eu podia ser encontrado com facilidade junto à banda de música, na Procissão do Enterro. A multidão descia a avenida Getúlio Vargas, de velas acesas, num espetáculo grandioso de fé.

Quando chegava o rodeio, sem dinheiro para o ingresso, o meu amigo Mário, mais audaz do que os outros, subornava o vigia que ficava no fundo do parque, e este permitia que toda a turma entrasse pelo buraco da cerca, uma aventura de dar frio na barriga. Enfim, Divinópolis era assim, um lugar de muitas promessas, de tantos amores, e um rio Itapecerica caudaloso, no qual ainda se podia banhar. Porém, fecho aqui a minha caixa de lembranças, porque o futuro há de ser de veras grandeza, para frente e para o alto!

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