Ampulheta do tempo

Segundo o Dicionário de Mitologia de Luiz A. P. Victoria, a Morte, filha da Noite, morava no Tártaro. A Grécia não lhe dedicou nem templos, nem altares, e, ainda que fosse considerada deusa, jamais teve sacerdotes naquele país. O cipreste lhe era especialmente consagrado. Em Roma, porém, particularmente no reinado de Sérvio Túlio, era conhecida como Libitina e possuía um templo no qual se depositava um dinheiro de prata por pessoa falecida. Era a deusa dos funerais e protetora dos encarregados e administradores das pompas fúnebres.
Entre nós, no imaginário popular, a Morte não é uma deusa, mas uma entidade representada por um esqueleto, vestido de preto, com uma foice no ombro, às espreitas, cuja função é encaminhar os viventes desta para a outra vida. Embora seja uma caveira, fica de olho na ampulheta do tempo, zelando para que ninguém se perpetue na terra além da conta. Por isso, o fator tempo é de suma importância. À medida que alguém nasce, começa a contagem para o encontro com a Morte, mais rápido para uns, mais devagar para outros.
E por falar em tempo, no dia do funeral de Áurea Venâncio, o cronista José Paulino leu e distribuiu cópias do soneto de Frei Antônio da Anunciação sob o título O Tempo e as Contas, que adverte: “Ó, vós que tendes tempo sem ter conta, não gasteis vosso tempo em passatempo. Fazei, enquanto é tempo, a vossa conta”. A advertência é justificada na última estrofe: “Pois aquele que sem conta gasta tempo, quando o tempo chegar, de prestar conta, como eu chorará por não ter tempo”.
Coincidentemente, na mesma época, recebi um livro de Ênia Azevedo, Terapia da Serenidade, de Linus Mundy, com ilustração de R. W. Alley. Nessa obra, o autor aconselha o vivente a não ter pressa, e sugere: “Recorde os tempos felizes e tranquilos do passado. Repouse lá. Cada momento guarda uma riqueza que leva uma vida para saborear”. Depois, acrescenta: “Guie sua vida com escolhas objetivas, não com pressa e eficiência. Melhor músico é o que toca com expressão e sentimento, não o que termina primeiro”.
Ao analisar as mensagens de Frei Antônio da Anunciação e de Linus Mundy, concluo que Áurea Venâncio, poeta de saudosa memória, é quem sempre esteve com a razão. No seu segundo livro, Concha de Refúgio, fez o seguinte registro: “Viver é um grande poema do qual devemos eliminar os versos inexpressivos da vã agitação mundana, do corre-corre cotidiano que não conduz a nada. É voltar-se para Deus, porque um dia depararemos com este sinal: Pare!”. Depois disso, a gente vira finado. Olhe só que coisa mais sem graça!
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