Após recorde em 2025, Divinópolis já registra 31 casos de tuberculose neste ano

Gabriela Lara
A tuberculose continua sendo um desafio para a saúde pública em Divinópolis. Dados atualizados da Secretaria Municipal de Saúde (Semusa) mostram que, até julho de 2026, o município registra 31 casos da doença, dos quais 28 pacientes permanecem em tratamento, o equivalente a 90,3% dos registros acompanhados pela rede municipal. O cenário mantém o alerta após 2025, quando a cidade registrou 62 confirmações, o maior números disponíveis a partir de 2012.
O acompanhamento dos pacientes é realizado de forma permanente pela Vigilância Epidemiológica, em parceria com a Atenção Primária à Saúde e outros serviços da rede municipal. Além do monitoramento dos casos, o município oferece diagnóstico, tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), investigação de contatos, busca ativa de pacientes que interrompem o acompanhamento e vacinação contra as formas mais graves da doença.
Perfil dos casos
Entre os 31 casos registrados neste ano, 26 correspondem a pacientes novos, representando 83,9% das notificações. A forma pulmonar continua predominando, com 25 registros, além de dois casos da forma pulmonar associada à extrapulmonar.
Assim como no ano passado, os homens concentram a maior parte das notificações. Em 2026, eles representam 83,9% dos casos registrados. Os dados também apontam que mais de 90% dos diagnósticos ocorreram entre pessoas de 20 a 59 anos, faixa etária economicamente ativa.
Em comparação, os números de 2025 também mostravam predominância masculina, com 80,65% das confirmações. Naquele ano, a maior concentração ocorreu entre adultos de 30 a 49 anos.
Crescimento
Os dados históricos mostram que a tuberculose voltou a crescer em Divinópolis nos últimos anos. Entre 2012 e 2019, os registros anuais variaram entre 21 e 53 casos. Em 2020, houve redução para 37 confirmações, seguida por 46 casos em 2021, 49 em 2022 e 45 em 2023.
Em 2024, o município registrou 56 casos e, em 2025, alcançou 62 confirmações, o maior número da série disponível. Em 2026, embora o total ainda seja parcial, os 31 casos registrados até julho demonstram que a doença continua exigindo atenção das autoridades de saúde.
O pneumologista Pedro Vilela explicou sobre o aumento de casos, principalmente em 2025, e disse que não é um fenômeno exclusivo do município.
— Divinópolis acompanha essa tendência e tem mostrado um aumento nos números de casos de tuberculose. Isso não é só no município, mas em todo o país, e Minas Gerais, infelizmente, está entre os estados com maior número de infectado — afirmou.
O especialista também relacionou parte desse crescimento aos impactos provocados pela pandemia de covid-19 sobre os serviços de saúde.
— A partir de 2022, 2023, com a recuperação da pandemia, a gente começa a ter também uma recuperação da capacidade do sistema de saúde, que foi muito sobrecarregada. As taxas de diagnóstico caíram naquele período e depois voltaram a subir com a retomada dos testes — destacou.
Segundo ele, fatores sociais também influenciam diretamente na incidência da doença.
— A bactéria da tuberculose vai atingir principalmente pessoas vulneráveis, como aquelas em situação de pobreza extrema, desnutrição, com doenças da imunidade ou privadas de liberdade — afirmou.
Principais fatores
Em 2025, o tabagismo apareceu como o principal agravo associado aos casos registrados em Divinópolis, presente em 31 pacientes. Também foram identificados alcoolismo em 16 casos, uso de drogas ilícitas em 12, diabetes e doença mental em cinco casos cada, além de aids em dois registros.
Nos primeiros dados divulgados em 2026, o perfil permaneceu semelhante. Entre os 10 primeiros casos registrados naquele levantamento, sete pacientes eram fumantes, cinco apresentavam alcoolismo e quatro faziam uso de drogas ilícitas.
Pedro Vilela também chamou atenção para o crescimento do uso de cigarros eletrônicos e seus impactos sobre a saúde respiratória.
— O uso destes dispositivos de cigarros eletrônicos está relacionado com o maior número de infecções respiratórias. Dentro dessas infecções respiratórias está a tuberculose — afirmou.
O pneumologista reforçou ainda os riscos associados ao consumo desses dispositivos.
— São dispositivos que fazem muito mal, são dispositivos que não são seguros, causam câncer e aumentam sim o risco de ter tuberculose. Então são dispositivos que não devem ser consumidos, não existe limite seguro para o consumo e que podem causar outras doenças — destacou.
Diagnóstico precoce e tratamento
A tuberculose é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis. Embora acometa principalmente os pulmões, também pode atingir outros órgãos, caracterizando a forma extrapulmonar.
A transmissão ocorre pelo ar, por meio de partículas eliminadas por pessoas com tuberculose pulmonar ou laríngea ativa e sem tratamento durante a fala, a tosse ou o espirro. A doença não é transmitida pelo compartilhamento de copos, talheres, pratos ou roupas.
Pessoas que apresentem tosse por mais de duas semanas, febre (principalmente no fim da tarde), suor noturno, emagrecimento ou cansaço persistente devem procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Após a confirmação do diagnóstico, o tratamento é iniciado rapidamente para reduzir os riscos de agravamento e interromper a cadeia de transmissão.
O tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS e dura, em média, seis meses, podendo variar conforme a resposta clínica do paciente. A utilização correta da medicação durante todo o período é considerada essencial para garantir a cura.
A diretora da Atenção Primária à Saúde, Simone Zanardi, destacou a importância da adesão ao tratamento.
— Após cerca de 15 dias de tratamento regular, a maioria dos pacientes com tuberculose pulmonar sensível apresenta redução importante da capacidade de transmissão da doença, desde que esteja utilizando corretamente os medicamentos e apresentando boa resposta clínica — concluiu.
Vacinação
Além do acompanhamento dos pacientes, Divinópolis mantém elevada cobertura vacinal com a BCG, vacina que protege principalmente contra as formas mais graves da tuberculose.
Em 2026, a cobertura vacinal alcançou 105,77% até o momento. Em 2025, o acumulado chegou a 112,81%, índices que refletem a manutenção da imunização infantil no município.
A aplicação da vacina é realizada na maternidade de referência nas primeiras horas de vida dos recém-nascidos. Também é possível agendar a vacinação nas Unidades Básicas de Saúde que funcionam como pontos de referência.
O coordenador da Central de Imunização, Tércio Leão, reforça que a prevenção vai além da vacinação.
— Mesmo após receber a vacina, é importante manter os ambientes bem ventilados e, sempre que possível, com entrada de luz solar, evitar permanecer por longos períodos em locais fechados com pessoas que apresentem sintomas respiratórios, cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar, higienizar frequentemente as mãos e procurar atendimento de saúde diante de sintomas persistentes — afirmou.
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