De setembro a setembro

Há coisas que só percebemos quando fazemos silêncio suficiente para escutá-las.
Setembro chega vestido de amarelo. As campanhas nos convidam a falar sobre saúde mental, sofrimento psíquico, modos de vida e viver. Por alguns dias, parece que conseguimos fazer uma pausa no ruído cotidiano para lembrar que existe algo precioso que precisa ser cuidado: a vida.
Mas setembro passa
E então fico pensando: o que acontece com a nossa saúde mental quando o amarelo é retirado das vitrines, dos cartazes e das redes sociais?
E penso que seja justamente aí que comece o cuidado de verdade.
Saúde mental não deveria ser uma conversa de setembro. Ela precisa caber na segunda-feira de manhã, na reunião que se estendeu demais, no trânsito, no corre do dia a dia, na mesa de jantar, na relação que já não encontra palavras, no cansaço que virou rotina, no corpo que insiste em pedir descanso enquanto a cabeça responde: “só mais um pouco”.
Há uma espécie de acostumamento ao excesso (e todo excesso esconde uma falta, em).
Acostumamos a dormir pouco, a responder mensagens fora de hora, a trabalhar cansados, a estar disponíveis o tempo inteiro. Acostumamos a dizer “está tudo bem” quando não está. E, talvez o mais perigoso, acostumamos tanto a funcionar que já não perguntamos se estamos, de fato, vivendo.
Dar conta não é necessariamente estar bem
Olhe bem, acredito ser essa uma das confusões mais silenciosas do nosso tempo.
Seguimos. Produzimos. Cuidamos dos outros. Entregamos. Sorrimos para a fotografia. Postamos. Performamos. Cumprimos compromissos. E ninguém percebe que, às vezes, por trás de uma pessoa aparentemente forte existe alguém tentando apenas chegar ao fim do dia.
Quero te contar que aquilo que não encontra palavra pode procurar outras formas de aparecer.
Às vezes aparece no corpo
No sono que desaparece. Na irritação que aumenta. Na falta de prazer. No cansaço que não passa. Na vontade de se afastar de tudo. Na sensação de estar sempre atrasado para a própria vida.
Por isso, cuidar da saúde mental comece por uma pergunta aparentemente simples, mas não simplista: como eu estou? Quem sou eu na fila do pão?
Não “como estão esperando que eu esteja”.
Não “como preciso parecer”.
Mas como, de verdade, eu estou.
E responder honestamente pode exigir coragem.
Porque nem sempre gostamos daquilo que encontramos quando nos olhamos por dentro.
Há momentos em que descobrimos que estamos cansados de ser fortes. Que determinados vínculos nos fazem mal. Que precisamos colocar limites. Que estamos vivendo uma vida excessivamente ocupada e pouco habitada. Que há uma tristeza que merece ser escutada, e não imediatamente eliminada.
Cuidar não significa transformar toda tristeza em doença.
Também não significa buscar uma felicidade permanente.
A vida humana comporta tristeza, frustração, luto, medo, angústia, incerteza. Há sentimentos que não precisam ser eliminados; precisam ser atravessados.
Saúde mental não é nunca sofrer. É poder sofrer sem estar sozinho.
É ter recursos internos e externos para atravessar aquilo que dói.
É poder falar.
Ser escutado.
Pedir ajuda.
Encontrar cuidado quando ele se faz necessário.
E aqui existe uma responsabilidade que ultrapassa o indivíduo.
Não podemos transformar saúde mental em mais uma tarefa da pessoa cansada.
Dizer “cuide-se” para alguém submetido diariamente à sobrecarga, à violência, ao assédio, à insegurança ou à ausência de reconhecimento é insuficiente.
Ambientes protegem, mas também adoecem
Uma família que permite conversa.
Uma escola que reconhece sofrimento.
Uma equipe em que ninguém precisa esconder fragilidades para pertencer.
Uma liderança que não confunde cobrança com humilhação.
Uma organização que respeita limites, reconhece o trabalho e oferece segurança psicológica.
Tudo isso também é promoção da saúde mental.
Talvez precisemos deslocar um pouco a pergunta.
Em vez de perguntar apenas “o que cada pessoa pode fazer para cuidar da própria saúde mental?”, deveríamos perguntar também:
“que tipo de vida, de relações e de ambientes estamos construindo?”
Ninguém se cuida completamente sozinho. Somos feitos de encontros. De vínculos. De histórias. De lugares onde fomos acolhidos e também daqueles onde aprendemos a nos proteger.
Por isso, o cuidado cotidiano pode ser pequeno.
E, justamente por isso, seja possível! O hoje possível já é muita coisa!
Uma pausa antes de responder.
Uma caminhada sem telefone.
Uma conversa que não tenha pressa.
Um limite colocado com delicadeza.
Uma noite em que se escolhe dormir em vez de continuar produzindo.
Um café tomado devagar.
Um livro.
Uma oração.
Um abraço.
Uma consulta quando for preciso.
A coragem de dizer: “eu não estou bem.”
E a disponibilidade para escutar alguém que diga isso.
Não são grandes gestos.
A vida raramente muda apenas nos grandes gestos.
Ela muda, muitas vezes e quase sempre, nas pequenas coisas que fazemos repetidamente.
Setembro pode nos lembrar de olhar para a vida.
Mas seria bonito se não precisássemos esperar setembro para olhar.
Que o amarelo permaneça depois que os cartazes forem retirados.
Não nas paredes.
Em nós.
Na maneira como perguntamos ao outro (e a nós mesmos) como estamos.
Na coragem de reconhecer limites.
Na escolha de pedir ajuda.
Na disposição de construir relações mais humanas.
Na compreensão de que cuidar da saúde mental não é interromper a vida para cuidar de si.
É aprender, pouco a pouco, a habitar a própria vida enquanto ela acontece (isso é gigante demais, aproveite!).
De setembro a setembro.
E, entre um setembro e outro, todos os dias possíveis.
O cuidado mais bonito é aquele que não faz barulho. Aquele que simplesmente permanece.
E, antes de terminar, quero dizer uma coisa a você que talvez esteja lendo estas palavras em silêncio:
eu vejo você.
Talvez ninguém esteja percebendo o quanto tem sido difícil sustentar os seus dias! Tem dias pesados demais, desafiadores demais! Ufa!
Se você não está bem, pause. Escute o que seu corpo, seus sentimentos e seus pensamentos estão tentando dizer.
Nomeie o que dói.
E, se puder, procure alguém de confiança para dividir, sem escutado, acolhido!
Saiba que não é preciso (e é humanamente impossível) ter todas as respostas, nem esperar chegar ao limite para pedir ajuda.
Você não precisa atravessar tudo sozinho. Há cuidado possível, há caminhos, há gente disposta a caminhar com você.
Respira, é humano!
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