Deputado mineiro propõe multa para quem pedir atendimento no SUS a bebês reborn

Da Redação
Um projeto de lei apresentado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) está gerando polêmica ao propor multar pessoas que utilizarem serviços públicos, como hospitais do SUS, para atender bebês reborn – bonecas hiper-realistas que simulam recém-nascidos. De autoria do deputado estadual Caporezzo (PL), a proposta argumenta que essa prática representa desperdício de dinheiro público e distorção da realidade, podendo prejudicar quem realmente precisa de atendimento médico. Enquanto o parlamentar defende a medida como necessária para "preservar a sanidade pública", usuárias de reborns e especialistas questionam a abordagem punitiva e discutem os limites entre terapia, arte e distúrbio psicológico.
Projeto de lei
O texto do PL proíbe a utilização de serviços públicos para "objetos inanimados" – categoria em que se enquadram os reborns – e prevê multa equivalente a 10 vezes o valor do serviço solicitado, com os recursos destinados a tratamentos de saúde mental. Na justificativa, Caporezzo menciona "devaneios da sociedade contemporânea" e "distopia generalizada", citando como preocupação casos de pessoas que exigem atendimento médico para as bonecas.
— É um sério desperdício dos impostos e um atestado de ajuda médica para o adulto — afirmou o deputado em entrevista, sem confirmar a existência de registros formais de atendimento a reborns no SUS. Questionado sobre a necessidade da lei, ele comparou a prática a um "câncer social" que deve ser "eliminado precocemente".
Caso viral
O debate ganhou força após um vídeo de Yasmim Becker, 17 anos, viralizar nas redes sociais em janeiro. A jovem, moradora de Janaúba, Norte Minas, apareceu pesando seu bebê reborn Bento, em uma balança hospitalar. Nas imagens, ela também simulava exames de rotina, como medir a circunferência da cabeça da boneca.
Em entrevista, Yasmim explicou que o vídeo foi gravado durante uma visita a um bebê de uma conhecida.
— Entrei no hospital como visita, com minha boneca no colo. A balança estava no corredor, disponível para uso. Não atrapalhei ninguém — disse.
Ela negou ter solicitado atendimento médico e afirmou que a ação foi apenas uma brincadeira para as redes sociais.
Disputa judicial
Em um outro caso que viralizou, uma advogada citou o atendimento a uma cliente que busca uma solução para separação e “guarda” de sua bebê reborn e das redes sociais da boneca, que geram lucros para o ex-casal.
A disputa é pela monetização dos canais digitais da boneca, além do gasto material efetuado pela cliente da mulher na compra da bebê reborn e o laço emocional. O perfil do bebê reborn no Instagram, nesse caso, virou uma fonte de renda para o casal.
Projeto oposto
Enquanto Minas discute proibir, o Rio de Janeiro caminha no sentido oposto. A Câmara Municipal aprovou em fevereiro o ‘Dia da Cegonha Reborn’ (4 de setembro), proposta do vereador Vitor Hugo (MDB) para valorizar as artesãs do setor. O texto aguarda sanção do prefeito Eduardo Paes (PSD).
Opiniões divididas
Pessoas criticam o projeto mineiro por sua vagueza.
— Como definir o que é “uso indevido”? Uma mãe que leva a boneca para acompanhar o filho real em uma consulta será multada? — questiona uma internauta.
Já defensores da saúde pública ponderam sobre prioridades.
— O SUS tem filas enormes. Se houver demanda por atendimento a objetos, precisamos de critérios claros — afirma outra pessoa.
Na Câmara
O assunto, como não poderia ser diferente, também repercute em Divinópolis. Na reunião da Câmara de ontem, os vereadores abordaram o assunto. Um deles, Anderson da Academia (Republicanos), abordou o tema na tribuna, e como o deputado e algumas pessoas consideram a tentativa de atendimento na saúde pública, um absurdo. Wesley Jarbas, mesmo partido, e Walmir Ribeiro (PL), completaram a cena segurando uma boneca.
Opinião
A polêmica reflete um conflito entre liberdade individual, saúde mental e gestão de recursos públicos. Enquanto o PL de Caporezzo segue em tramitação, o debate revela uma sociedade em transformação, onde os limites entre realidade e fantasia – e entre terapia e distúrbio – estão cada vez mais tênues.
O projeto ainda passará por comissões antes de ser votado em plenário.
(Com informações da ALMG).
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