Discussão termina em morte na zona rural de Divinópolis

Elian Ozéias
Um jovem de 21 anos foi assassinado a tiros após uma discussão e briga registradas na comunidade rural do Córrego do Paiol, na região do Buritis, zona rural de Divinópolis. O crime, ocorrido na tarde desta quarta-feira, 17, é mais um episódio que evidencia o avanço da violência letal no município, especialmente entre jovens, e elevou para 49 o número de homicídios registrados na cidade em 2025, mais que o dobro do total contabilizado em todo o ano passado.
Ocorrência
De acordo com a Polícia Militar (PM), as equipes foram acionadas após denúncias de disparos de arma de fogo em um bar localizado na comunidade rural. Quase simultaneamente, a corporação recebeu a informação de que um homem de 28 anos havia dado entrada na UPA de Divinópolis com ferimentos provocados por tiros.
No atendimento inicial, o homem ferido relatou que estava no local quando indivíduos armados desembarcaram de um veículo e efetuaram diversos disparos, afirmando ainda que houve troca de tiros. Durante as diligências na região, os militares localizaram, em um terreno rural próximo ao bar, o corpo de um jovem de 21 anos, já sem vida, com múltiplas perfurações provocadas por disparos de arma de fogo.
Testemunhas relataram momentos de tensão após o primeiro confronto, com movimentação de pessoas em fuga, novas discussões, outros disparos e a saída apressada de veículos da comunidade. A perícia técnica confirmou que a vítima foi atingida por vários tiros e recolheu no local 12 cartuchos deflagrados de calibre 9 mm, além de peças de vestuário que podem auxiliar na investigação.
Suspeito ferido é preso
Com o avanço das apurações e a análise dos indícios colhidos no local, a Polícia Militar constatou que o homem de 28 anos ferido por disparos, inicialmente tratado como vítima, é suspeito de participação direta no homicídio consumado. Ele recebeu voz de prisão e permanece sob escolta policial no Complexo de Saúde São João de Deus, o homem não possui registro policial.
Um segundo suspeito, de 22 anos, também foi identificado e preso nesta quinta-feira, 18, como possível envolvido no crime. Durante as diligências, um veículo de cor preta, possivelmente utilizado na ação criminosa, foi localizado abandonado e apreendido.
O corpo da vítima fatal foi removido após a conclusão dos trabalhos periciais e encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML). As diligências continuam para o completo esclarecimento dos fatos e identificação de todos os envolvidos.
Juventude no centro
O homicídio no Córrego do Paiol ocorre em meio a um cenário alarmante de violência em Divinópolis. Além dos 49 consumados em 2025, o município registrou ainda 15 tentativas ao longo do ano. Levantamento feito pelo Agora aponta que a faixa etária mais atingida é a dos 25 anos, com dez vítimas, reforçando a concentração da violência letal entre jovens.
A análise mensal revela uma escalada preocupante: setembro lidera com sete homicídios, seguido de fevereiro e maio, com seis cada. Em apenas um ano, o número de mortes violentas mais que dobrou, passou de 23 em 2024 para 49 em 2025.
Os dados mostram que o problema vai além de ocorrências isoladas e revela um padrão persistente de conflitos armados, muitas vezes iniciados por discussões banais, que terminam de forma trágica.
| Mês | Homicídios – 2025 | Homicídios – 2024 |
| Janeiro | 2 | 0 |
| Fevereiro | 6 | 2 |
| Março | 5 | 4 |
| Abril | 2 | 1 |
| Maio | 6 | 2 |
| Junho | 3 | 4 |
| Julho | 3 | 1 |
| Agosto | 4 | 2 |
| Setembro | 7 | 6 |
| Outubro | 4 | 0 |
| Novembro | 2 | 0 |
| Dezembro | 3 | 0 |
| Total | 49 | 23 |
Violência estrutural
Para o cientista social Emanuel de Morais, os números evidenciam um problema estrutural que não pode ser tratado apenas sob a ótica policial. Segundo ele, pensadores da Escola de Chicago já apontavam que fatores como precarização do trabalho, mobilidade urbana deficiente, desigualdade social e ausência de políticas públicas eficazes moldam comportamentos e relações sociais.
— A violência urbana é reflexo de uma anomia social, conceito trabalhado por Durkheim. Não se resolve apenas com repressão, mas com políticas públicas que atuem nas causas do problema — explica.
O especialista destaca que a associação quase automática entre violência e periferias acaba ocultando o debate sobre as razões que tornam esses territórios palco recorrente de homicídios.
— A pergunta central é: o que atrai o jovem periférico ao crime? Quais alternativas reais de vida ele possui? — questiona.
Segundo Emanuel, enquanto as respostas forem paliativas, a violência seguirá se reproduzindo.
— Não se remenda pano novo em roupa velha. Ou se enfrenta o problema de forma estrutural ou continuaremos naturalizando a morte de jovens — afirma.
Casos sem respostas
O avanço da violência também é marcado por casos que seguem sem esclarecimento. Um exemplo é o do adolescente Pablo Almeida, de 14 anos, que desapareceu no dia 28 de fevereiro e foi encontrado morto quatro dias depois, em estado avançado de decomposição, no bairro Ferrador, próximo a Carmo do Cajuru.
Até hoje, não há respostas claras sobre as circunstâncias da morte. O laudo da Polícia Civil classificou o caso como “encontro de cadáver”, mas a mãe do adolescente, Simone Almeida, segue questionando as conclusões oficiais e cobrando respostas das autoridades.
Enquanto investigações seguem em andamento e prisões são realizadas, os números revelam uma realidade dura: em Divinópolis, a juventude segue no centro da violência letal, tanto nas áreas urbanas quanto nas comunidades rurais, como no Córrego do Paiol, onde mais uma discussão terminou em morte.
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