Entre a razão e a paixão

O futebol muitas vezes nos dá lições de vida que podem e até deveriam ser usados como exemplos para que tivéssemos (ou tenhamos) uma melhor noção do que fazer ou viver em nossos dias a dias. E o que acontece hoje nos bastidores e no cotidiano do Cruzeiro Esporte Clube merece, sim, uma reflexão e uma análise mais profunda de como devemos agir, ou mesmo o que podemos fazer, para demonstrar o quanto amamos alguém, o quanto nos interessamos por tudo aquilo que fazemos.
E ninguém, em sã consciência, seria capaz de definir com exatidão e imparcialidade qual seria o melhor modo de demonstrar o carinho e amor, o quanto nos importamos com alguém, ou com aquilo que fazemos. Cada um tem seu modo de ser, de agir e de pensar, e isto é até salutar, e é justamente deste modo que se forjam os grandes vencedores.
Estilos diferentes
E na gestão do Cruzeiro, depois do desastre que quase levou o clube a cerrar de vez as portas, dois homens (igualmente apaixonados pela Raposa) tomaram para si a tarefa de reconstruir o clube, e ambos, em proporções diferentes e distintas, sofreram e ainda sofrem, mais que todos, quando as coisas não dão certo, principalmente quando se tornam alvo de críticas (e até ofensas) por parte de alguns.
Mas num ponto ninguém pode colocar dúvidas: se o clube ainda respira e tem um futuro pela frente, isso se deve ao que fez Ronaldo Nazário e o que faz ainda hoje Pedro Lourenço, com seus estilos e modos diferentes de pensar o futebol. O primeiro usando mais a razão que a emoção, e o segundo deixando-se levar mais pela paixão que tem pelo clube.
Razão, que incomoda
Sob o comando de Ronaldo e sua equipe, o Cruzeiro saiu da UTI e passou a respirar fora dos aparelhos, mas eles não abriam mão de seu modo de pensar a gestão do futebol, que tinha a ver mais com a razão que com a emoção, e isso levou ao desgaste de todos com a torcida e a venda da SAF. Eles (Ronaldo e seus auxiliares diretos) tinham um modo de pensar o futebol e não abriam mão disso. Comissão técnica e jogadores foram contratados pensando no modo que queriam ver o time jogando, não importando se tinham ou não nomes já consagrados no futebol. Tinham que se encaixar no esquema de jogo que a direção queria para o time e não o contrário. Até certo ponto deu certo, mas a exigência da torcida, que queria resultados imediatos, jogou por terra toda a programação feita. E deu no que todos já sabem.
Paixão, que mais atrapalha
Com o desgaste, acabou acontecendo a venda das ações para um empresário torcedor apaixonado pelo clube, Pedro Lourenço, que chegou com uma mentalidade totalmente diferente de ver o futebol, deixando com que a paixão se sobressaísse sobre a razão, e isso acabou se tornando grande problema. E os resultados do time nos últimos meses atestam bem esta verdade.
Dirigentes foram contratados pelo comandante pensando como torcedor do clube e não como empresário, com a chegada de pessoas que, em algum momento, já haviam sido responsáveis por muitas alegrias que ele (Pedro Lourenço) tivera com as conquistas do clube. E foi aí o seu primeiro erro, mas não o pior deles.
As contratações de treinadores e jogadores apenas pelo que já tinham feito e jogado em outros tempos e clubes (formando um elenco de nomes, mas sem um time pronto), declarações dadas no calor de derrotas, deixando a emoção falar mais alto que a razão, acabaram jogando contra. E disso se deu bem até mesmo parte da imprensa, que aproveitava suas falas para jogar ainda mais lenha na fogueira, colocando tudo em vias de explodir de uma hora para outra.
Verdade ficou clara
E vendo o time do Cruzeiro hoje, ninguém pode questionar esta verdade. De nome, foi formado um elenco a nível dos melhores do Brasil, mas com diversos pontos fracos em todos os setores, que tornam a tarefa de qualquer treinador, que venha assumir o comando do time, ainda mais difícil. E ainda tem mais: chegam treinadores que não têm a mínima noção dos jogadores que terão à sua disposição, atletas que se encaixem no seu modo de enxergar e ver o jogo. E aí fica difícil se imaginar que alguém consiga, em pouco tempo, armar um time vencedor.
José Carlos de Oliveira
jcqueroviver@hotmail.com.br
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