Espírito Santo determina fechamento de supermercados aos domingos e medida acende alerta no varejo mineiro

Jorge Guimarães
Uma mudança considerada histórica no varejo do Espírito Santo acendeu o sinal de alerta entre empresários de Minas Gerais. A partir de 1º de março de 2026, todos os supermercados e atacarejos capixabas passarão a fechar as portas aos domingos, conforme estabelece a nova Convenção Coletiva de Trabalho (2025–2027).
A decisão impacta diretamente a rotina de consumo no estado vizinho e altera uma prática consolidada há décadas: o funcionamento do comércio supermercadista aos domingos, tradicionalmente um dos dias de maior movimento. A medida, fruto de negociação entre sindicatos patronais e dos trabalhadores, passa a valer para estabelecimentos que mantêm funcionários registrados.
Pela nova regra, apenas os pontos de comércio mantidos exclusivamente por familiares, sem empregados contratados formalmente, poderão continuar funcionando normalmente aos domingos.
Laboratório
A medida, inédita no país em escala estadual, transforma o estado capixaba em um laboratório nacional, já que o período de fechamento segue até outubro de 2026, funcionando como um projeto-piloto para avaliar impactos econômicos, sociais e trabalhistas.
Minas Gerais
No mesmo direcionamento, Minas Gerais acompanha cada passo com atenção redobrada. Isso porque um projeto semelhante já tramita na Assembleia Legislativa (ALMG): o PL 4.651/2025, de autoria do deputado Coronel Henrique (PL), que propõe restringir o funcionamento de supermercados em todo o território mineiro aos domingos.
— A experiência vizinha poderá servir como argumento direto para parlamentares que defendem a medida em Minas, reforçando a viabilidade de sua adoção — avaliou o economista Lazaro Ribeiro.
Por outro lado, a reação do setor produtivo, dos consumidores e das entidades representativas também será determinante.
— Se houver impacto negativo nas vendas, aumento da pressão sobre outros dias da semana ou insatisfação generalizada da população, o PL mineiro pode enfrentar maior resistência durante sua tramitação — concluiu.
Seriedade
O Agora ouviu o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Divinópolis (Sincomércio), Gilson Teodoro Amaral, que vê a discussão sobre o fechamento de supermercados aos domingos, como anunciado no Espírito Santo, extremamente relevante e merece ser tratada com seriedade.
— A proposta pode até se inspirar em modelos europeus, mas é fundamental lembrar que o contexto brasileiro é completamente diferente, tanto social quanto econômico — avaliou.
Para Amaral, a realidade brasileira vive em outro contexto, principalmente no que se diz na falta de mão de obra qualificada.
— Supermercados em vários estados já enfrentam dificuldades reais para formar equipes completas, o que tem levado muitos empresários a reduzir horários ou até fechar as portas aos domingos por absoluta falta de profissionais — pontuou.
Distorções estruturais
Para Amaral, esse problema não decorre exclusivamente das condições do setor, mas também de distorções estruturais do país.
— Enquanto empresários lutam para manter suas operações funcionando e gerar empregos, o Brasil ainda coleciona milhões de pessoas dependentes de auxílios governamentais permanentes. Programas sociais são importantes e necessários, mas devem servir de ponte para o mercado de trabalho, não de substituto — definiu.
O presidente do Sincomércio ressalta ainda, que fechar supermercados aos domingos, tende a gerar uma série de impactos econômicos difíceis de ignorar.
— Domingo é um dos dias de maior movimento e conveniência para o consumidor, por isso, tende a reduzir faturamento, diminuir arrecadação de impostos, prejudicar empregos existentes e limitar a competitividade do setor. O comércio é uma das engrenagens mais importantes da economia nacional — analisou Amaral.
Gilson Amaral acredita que o caminho correto é outro.
— Teríamos que ter políticas de incentivo à capacitação e ao emprego, uma revisão responsável dos incentivos assistenciais, alinhando-os à reinserção produtiva. Além da flexibilização das regras trabalhistas para o comércio e também contar com um ambiente econômico mais favorável ao empreendedorismo — concluiu.
Redistribuição das compras
A possibilidade tem provocado debates entre empresários e consumidores. Especialistas apontam que a suspensão das atividades nesse dia pode provocar uma redistribuição das compras para os dias anteriores, especialmente sextas-feiras e sábados, alterando de forma significativa a dinâmica operacional das lojas.
Para Lazaro Ribeiro, essa concentração pode exigir reforço de equipes, ajustes no abastecimento e reorganização de estoques.
— Não se trata apenas de transferir vendas de um dia para outro. Há custos operacionais envolvidos. Além disso, parte das compras por impulso, típicas do domingo, pode simplesmente deixar de acontecer — ponderou.
O gerente de supermercado Sérgio Antônio de Oliveira acredita que a mudança exigiria planejamento cuidadoso.
— O domingo é um dia de grande movimento, principalmente no período da manhã. Muitas famílias aproveitam para fazer compras com mais tranquilidade. Se fecharmos, teremos que reforçar o quadro de funcionários na sexta e no sábado para dar conta da demanda — afirmou.
Consumidores
Entre os consumidores, as opiniões se dividem. A auxiliar administrativa Mariana Souza acredita que teria que reorganizar a rotina.
— Eu costumo ir ao supermercado aos domingos porque é quando tenho mais tempo. Se fechar, vou ter que me planejar melhor e enfrentar mais filas na sexta ou no sábado — comentou.
Já o aposentado Carlos Alberto Alves vê pontos positivos na possível mudança.
— Talvez seja bom para os trabalhadores, que teriam o domingo garantido para descansar. Para nós consumidores, é só questão de adaptação — avaliou.
Para Lazaro Ribeiro, o impacto econômico dependerá da forma como a medida for implementada.
— Se houver diálogo entre sindicatos e empresários, é possível mitigar perdas. Mas é inegável que haverá uma reconfiguração no comportamento de consumo e na estrutura operacional das empresas — concluiu.
5x2
Em Belo Horizonte, o mês de março também chega com novidade no Grupo Supernosso, uma das maiores redes de supermercados do estado. A empresa anunciou que vai adotar a escala 5x2, de cinco dias de trabalho e dois de descanso, para os seus colaboradores das áreas operacionais.
Por enquanto, trata-se de um projeto piloto em três das suas unidades, com previsão de início para março. O novo modelo, entretanto, não prevê uma redução de carga horária para os trabalhadores.
— Os colaboradores cumprirão uma jornada de trabalho diária de 8h48, ao invés de 7h20, como ocorre no formato 6×1. A escala prevê uma jornada de cinco dias de trabalho e dois de descanso, consecutivos ou não, mantendo as 44 horas semanais previstas em lei — apontou a empresa.
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