Extremamente corajosa

Ao afirmar após a audiência pública realizada na Câmara que irá manter o projeto de reforma da Previdência municipal, a prefeita Janete Aparecida (Avante), não somente mostrou que tem pulso forte, mas uma coragem extrema. Basta relembrar que nenhum prefeito ousou a fazer algo pelo menos parecido, mesmo sabendo da gravidade da situação do Instituto da Previdência há anos. Ela tem ciência que está mexendo em um vespeiro e pode receber picadas de todos os lados, mas vai novamente manter a decisão. Nenhuma surpresa, já que havia mostrado a mesma postura em outra negociação complicada com o transporte público. Não resta outra coisa a dizer, a não ser aplaudir. É para muito poucos, em especial por se tratar de mulher, ainda deixada à margem, e desacreditada, quando o assunto são cargos importantes.
Prejuízo ou ascensão?
Ao enfrentar os sindicatos e servidores, Janete tem ciência de que a decisão pode lhe prejudicar e muito politicamente. Ou talvez, não. Ao falar que está pensando na cidade e no futuro do seu povo, pode conquistar de vez o coração do eleitor. Afinal, os servidores são muitos e fundamentais, mas não o suficiente para eleger um chefe do Executivo. Estará por dois anos à frente da Prefeitura. No entanto, é a grande oportunidade de tentar uma reeleição e ser a escolhida pelo povo para comandar Divinópolis por mais quatro anos. E essa "arenga" agora, certamente será o termômetro para medir se ela "deu um tiro no pé", ou acertou em cheio. Quem viver verá!
Desfile prejudicado?
O certo até o momento que pode ser bastante prejudicado é o desfile de 1° junho, aniversário da cidade. Ao decretarem greve na assembleia, os servidores foram unânimes em afirmar que não vão participar do desfile comemorativo, o que é de praxe todo ano. Seria um desfalque e tanto, visto que todas marcam presença, geralmente com a coordenação da Settrans. Isso significa quase duas mil pessoas a menos, além dos adereços presentes e oportunidade de apresentar o que foi feito por cada uma delas. Se eles mantiverem um trecho de uma música, aclamado na assembleia: "Se não pode com formiga, não atiça o formigueiro", é bem isso que vai acontecer. Seria a primeira vez na história! Aguardemos.
O Brasil envelheceu
E o INSS não acompanhou. Essa é a grande realidade. Estudos recentes mostram que nos anos 80, eram dez trabalhadores na ativa para cada aposentado. Hoje são menos de 4. Em 2060, a projeção é 1,6. A pirâmide inverteu. As pessoas vivem mais — expectativa de vida subiu de 62 anos em 1980 para 76 anos hoje — mas continuavam se aposentando com 55, 60 anos. Resultado: o INSS paga benefício por 20, 25 anos, só que a arrecadação de quem está trabalhando não cobre. O rombo da previdência passou de R$ 300 bilhões/ano. Sem reforma, ou o governo imprime dinheiro e gera inflação, ou tira verba de saúde, educação e infraestrutura para tapar o buraco. É a escolha entre pagar aposentadoria hoje ou ter hospital amanhã. Não é diferente o que está ocorrendo em Divinópolis. Ou faz a reforma, ou a população ficará desassistida. Por isso, Janete tem toda razão quando fala de toda a cidade que hoje o número de habitantes chega a quase 243 mil.
Privilégios e distorções
É preciso destacar ainda, que aqui ou no país, o sistema não é igual para todo mundo. O regime geral tem teto de R$ 8 mil, mas os próprios servidores públicos, militares e políticos tinham regras muito mais generosas: aposentadoria integral, idade menor, paridade com ativos. Isso cria uma bomba fiscal onde quem ganha mais, se aposenta melhor e mais cedo, bancado por quem ganha salário mínimo. Em Divinópolis, não é segredo que têm aposentados ganhando R$ 30, R$ 40 mil. Já houve casos de mais de R$ 50 mil. Para tentar amenizar a distorção, as reformas tentam aproximar as regras: idade mínima, tempo de contribuição maior, fim da integralidade para novos servidores. Não resolve 100%, mas reduz a desigualdade dentro do próprio Estado. Sem isso, o trabalhador comum, como o braçal, trabalha até 65 anos para bancar aposentadoria de 50 anos do setor público. Sem reforma, o sistema quebra. E quando isso acontece, quem perde primeiro é o mais pobre, porque o rico tem previdência privada.
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