Guerra de narrativas marca sanção do projeto do Hospital Regional

Lucas Maciel
A sanção do projeto de lei que autoriza a doação do Hospital Regional de Divinópolis à Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), assinada na segunda-feira, 12, pelo governador Romeu Zema (Novo), marcou um avanço decisivo para a abertura da unidade hospitalar após mais de 15 anos de espera. O ato, no entanto, também desencadeou uma intensa repercussão política, com discursos divergentes, críticas cruzadas e disputas públicas sobre a responsabilidade pela obra e pelo atraso no processo.
A assinatura encerra uma das etapas mais aguardadas para que o hospital comece a operar e esclarece a controvérsia sobre o prazo legal para a manifestação do Executivo estadual, que, segundo o governo, é contado a partir do recebimento formal do texto aprovado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), e não da votação em plenário.
Governo exalta investimentos
Ao se manifestar sobre a sanção, o governador Romeu Zema adotou um discurso defensivo e de enfrentamento político. O chefe do Executivo mineiro buscou reforçar que a construção do Hospital Regional de Divinópolis foi realizada exclusivamente com recursos estaduais e reagiu a declarações de adversários que, segundo ele, tentam assumir protagonismo no processo sem terem contribuído financeiramente para a obra.
Zema também utilizou tom crítico ao comentar a repercussão do tema nas redes sociais, afirmando que há uma tentativa de reescrever a história do hospital agora que a obra está concluída.
— O hospital foi 100% concluído com recursos do governo do Estado de Minas. Agora que está pronto, bonito, tem gente falando que é o pai e a mãe da criança — afirmou.
Em outro trecho, o governador elevou o tom ao criticar diretamente o que chamou de desinformação e oportunismo político em torno do tema.
— O hospital regional de Divinópolis não tem dinheiro desses mentirosos que estão falando aí. Estão pegando o bonde andando para enganar as pessoas — declarou.
Aliados
O deputado estadual Eduardo Azevedo (PL), que esteve junto com Zema no ato de assinatura, seguiu a mesma linha do governador e utilizou sua manifestação pública para destacar o papel do governo de Minas na conclusão da obra. Para o parlamentar, a sanção representa o encerramento de um longo ciclo de espera e consolida a entrega do hospital como uma ação direta do Executivo estadual.
Eduardo Azevedo afirmou que, a partir da sanção, o hospital poderá ser oficialmente transferido para a universidade federal, permitindo que a unidade passe à fase de operação.
— É uma obra 100% do governo do Estado. Agora, com a sanção do projeto de lei, o governo entrega o hospital para Divinópolis e para a região Centro-Oeste — disse.
O deputado também associou a entrega do hospital à imagem política da cidade e criticou, de forma indireta, adversários que disputam protagonismo.
— Divinópolis vai ser mostrada como a cidade dos políticos que fazem e entregam resultado — completou.
Críticas
Autora do projeto de lei que viabilizou a doação do imóvel, a deputada estadual Lohanna França (PV) reconheceu a importância da sanção, mas fez duras críticas ao governo estadual pela condução do processo. Segundo a parlamentar, o atraso na assinatura foi incompatível com a urgência da saúde pública regional e teve motivação política.
Lohanna destacou o trabalho técnico realizado por servidores da UFSJ, profissionais da saúde e deputados estaduais, ressaltando que a aprovação do projeto ocorreu de forma unânime e em ritmo acelerado na ALMG.
— Só não dá para agradecer ao governador, que levou essa sanção até o último dia por motivos pequenos e políticos, atrasando uma etapa simples, mas fundamental — afirmou.
Apesar das críticas, a deputada reforçou que a conquista não pertence a um único grupo político.
— A conquista de verdade é aquela que sai do papel e muda a vida das pessoas. Essa foi construída com muitas mãos — disse.
Prefeito cobra fim da disputa
O prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo (Novo), adotou um discurso mais voltado à urgência do atendimento à população e à necessidade de encerrar o debate político em torno da autoria da obra. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele destacou a situação crítica da rede de saúde municipal e cobrou rapidez na inauguração do hospital.
Gleidson afirmou que a discussão sobre quem é responsável pela obra perde sentido diante da realidade enfrentada diariamente pela população.
— Ninguém é pai de obra. Quem é o pai dessa obra é o povo que paga imposto — afirmou.
O prefeito também alertou para as consequências práticas da demora no funcionamento da unidade.
— Se esse hospital não for inaugurado o mais rápido possível, vai continuar gente morrendo na fila esperando vaga — declarou.
Articulação
O deputado federal Domingos Sávio (PL) afirmou que a sanção do projeto representa o avanço de uma luta antiga e destacou sua participação ao longo das diferentes etapas do processo. Segundo ele, a região convive há anos com a sobrecarga da rede de saúde, o que torna o funcionamento do hospital uma necessidade urgente.
Domingos Sávio relembrou dificuldades enfrentadas desde a fase inicial do projeto, incluindo entraves no repasse de recursos em governos anteriores, e ressaltou as tratativas realizadas com o atual governo estadual para garantir a conclusão da obra.
— Esperamos que o hospital público atenda a demanda de toda a nossa região, que está há anos quase em colapso. Tenho uma história muito forte com essa conquista, desde o projeto até as garantias dadas pelo governador Romeu Zema. Foi um conjunto de esforços que tornou possível essa conquista — afirmou.
Próximos passos
A secretária nacional de Finanças do PT e pré-candidata a deputada federal, Gleide Andrade, celebrou a sanção e ressaltou que o Hospital Regional de Divinópolis, após 15 anos parado, começa a sair do papel. Ela destacou que a gestão será da universidade federal e que o atendimento será integralmente pelo SUS.
— Esse hospital regional agora vai ser realidade, com gestão da Universidade Federal e atendimento 100% SUS — disse.
Gleide também ponderou que a abertura ocorrerá de forma gradual, respeitando critérios técnicos.
— Ninguém abre um hospital da noite para o dia. Ele será aberto em três etapas, mas vai salvar muitas vidas — completou.
Em nota, a UFSJ informou que a sanção permite o registro da transferência do imóvel e a assinatura do contrato com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). O reitor Marcelo Pereira de Andrade destacou a relevância do momento para a região.
— É um momento importante para a saúde pública da região Centro-Oeste. Agradeço a todos os envolvidos e, em especial, à deputada Lohanna pelo projeto aprovado — escreveu.
Expectativas para funcionamento
Com a sanção, o processo de transferência do Hospital Regional avança para sua fase final. Apesar do avanço administrativo, a expectativa da população segue concentrada na definição do cronograma de abertura e no início efetivo dos atendimentos, após mais de uma década de espera.
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