Investir na Black Friday ou Natal: eis a questão

Jorge Guimarães
Em outubro começa o período mais aguardado do varejo: o fim de ano. É o momento em que o comércio se prepara para aproveitar datas estratégicas que impulsionam as vendas e aquecem a economia. O calendário inicia com o Dia das Crianças, já consolidado como uma das principais oportunidades para o setor, e segue com o Halloween, que vem conquistando cada vez mais espaço no Brasil, abrindo novas chances de negócios, principalmente para segmentos ligados à moda, decoração, festas e alimentação temática.
Datas gigantes
Na sequência, chegam os dois gigantes do varejo: a Black Friday, em novembro, e o Natal, em dezembro. Ambas movimentam cifras expressivas e mobilizam consumidores em busca de promoções e presentes. A Black Friday é marcada por ofertas agressivas e costuma atrair quem busca antecipar as compras de fim de ano com preços mais baixos. Já o Natal, além de ser a data mais tradicional para o comércio, envolve o fator emocional, que estimula não apenas presentes, mas também produtos de decoração, alimentos e serviços.
Onde investir
Diante desse cenário, surge a grande pergunta: vale a pena investir mais na Black Friday, no Natal ou nas duas datas? A resposta pode variar de acordo com o perfil do público-alvo e da estratégia de cada empresa. Para alguns segmentos, como eletrônicos, eletrodomésticos e moda, a Black Friday é essencial para garantir fôlego nas vendas. Já para setores ligados ao consumo afetivo, como brinquedos, perfumes, joias e gastronomia, o Natal segue imbatível.
No entanto, especialistas lembram que o ideal é enxergar as duas datas como complementares, e não concorrentes.
— Uma campanha bem planejada pode usar a Black Friday como porta de entrada, atraindo clientes e fidelizando-os para as compras natalinas. Assim, o empresário aproveita o melhor dos dois mundos: o apelo do desconto imediato e a magia da celebração familiar — avalia o economista Leandro Maia.
Mudanças
Os questionamentos se fazem necessários porque neste ano, os varejistas brasileiros estão ajustando suas estratégias e demonstram disposição em investir menos em propaganda em torno da Black Friday. A decisão reflete uma mudança de foco: em vez de apostar em grandes campanhas de descontos em novembro, muitos empresários pretendem selecionar um número menor de produtos em promoção e concentrar esforços nas vendas de Natal. A justificativa é clara: em dezembro, os lojistas concedem menos descontos e, consequentemente, conseguem trabalhar com margens de lucro mais vantajosas.
A análise é do gerente executivo da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), Daniel Sakamoto, que acompanha de perto o comportamento do setor. Segundo ele, a tendência aponta para um varejo mais cauteloso, que busca equilíbrio entre atrair o consumidor com oportunidades na Black Friday e garantir resultados sólidos na data mais importante do calendário comercial, o Natal.
Sakamoto destaca que o Natal continua sendo insubstituível, não apenas pelo volume de vendas, mas também pelo apelo emocional, que impulsiona compras de presentes, lembranças e itens para a ceia. A estratégia, portanto, é preservar a rentabilidade em dezembro, ao mesmo tempo em que se evita a pressão dos altos custos promocionais em novembro.
Segundo ele, não se trata de apagar a Black Friday do calendário promocional, mas sim de adaptar a comunicação e o volume de ofertas, de modo que a última sexta-feira de novembro não comprometa as vendas de dezembro, um efeito observado em anos anteriores, quando consumidores concentraram grande parte das compras antes mesmo do início do mês natalino.
Opiniões
Entre os empresários divinopolitanos, as opiniões se dividem quanto às estratégias a serem adotadas para aproveitar as duas datas. No entanto, quando o assunto é deixar de divulgar em uma, o consenso é de que a ideia não desperta interesse, pelo menos no cenário atual.
— Independentemente do porte do negócio, a Black Friday continua sendo uma oportunidade importante de atrair clientes e movimentar o comércio. Nenhum empresário quer abrir mão de divulgar a data — destacou o comerciante de moda infantil, Guilherme Vasconcelos.
Já para o empresário do ramo de vestimenta, Carlos Alves, a estratégia de colocar menos produtos em promoção em novembro e concentrar esforços no Natal pode até ser válida quando se trata de grandes magazines e redes de lojas de âmbito nacional. No entanto, ele ressalta que a realidade é bem diferente para o pequeno e médio comerciante.
— Para nós, que atuamos de forma mais local e dependemos de cada oportunidade de venda, a palavra de ordem é aproveitar todas as datas possíveis para fazer o faturamento crescer. A Black Friday ajuda a atrair o cliente, gerar movimento e preparar terreno para as vendas de Natal. Abrir mão de uma dessas chances seria perder competitividade — afirmou.
Outros segmentos
A reportagem também ouviu o gerente de loja de supermercado, Sérgio Antônio de Oliveira. Conforme ele, a expectativa para a Black Friday deste ano é a de manter o mesmo modelo adotado em anos anteriores, e que a estratégia é oferecer um mix variado de produtos em promoção durante toda a semana que antecede a data, permitindo que os clientes tenham mais tempo para aproveitar as ofertas.
— A ideia é não concentrar todas as ações em um único dia, mas sim distribuir as oportunidades ao longo da semana. Assim, o consumidor consegue se planejar melhor e o fluxo de clientes é mais equilibrado dentro da loja — explicou.
Também abordado sobre o assunto, o empresário do setor calçadista, Dalmo Faleiro, destacou que a estratégia para este ano será fidelizar ainda mais os clientes. Para isso, ele aposta em promoções que integrem as duas datas, Black Friday e Natal, criando uma espécie de “venda casada” que estimula o consumidor a voltar à loja em dezembro após aproveitar as ofertas de novembro.
Conforme o empresário, o diferencial será o investimento nas redes sociais, utilizadas como principal canal de divulgação e de relacionamento com o público.
— A ideia é atrair o cliente na Black Friday e mostrar que ele pode ter ainda mais vantagens se retornar no Natal. Isso fortalece a relação com a marca e amplia as chances de vendas repetidas — explicou.
Para o economista Leandro Maia, a discussão sobre onde investir mais, Black Friday ou Natal, continua aberta e demonstra que não existe uma fórmula única para todos os casos.
— Cada segmento e cada porte de negócio tem suas particularidades. Enquanto grandes redes podem se beneficiar ao concentrar esforços no Natal, pequenos e médios comerciantes precisam aproveitar todas as oportunidades de venda disponíveis ao longo do ano. O importante é que a estratégia seja planejada de acordo com o perfil do cliente e a realidade do mercado — explicou.
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