O batismo das palavras

Augusto Fidelis
Existem pessoas que a função delas no mundo é inventar. Não importa o tipo de invento, desde que se invente, até mesmo palavras. No governo Collor, o então ministro Rogério Magri, do Trabalho, encantoado pelas centrais sindicais que temiam a perda de benefícios conquistados pelos filiados, inventou o verbete Imexível. Os chamados intelectuais, que também gostam de inventar, caíram de pau. Por pouco o inventor não foi queimado em praça pública. Hoje, o dicionário Huais já registra a palavra. Isto significa que ela foi batizada.
Mais recentemente, alguém que não tinha o que fazer, inventou outra palavra, largamente utilizada: Empreendedorismo. O problema é que esta palavra é pagã. Se tivesse morrido há algum tempo, iria direto para o limbo. No entanto, como o limbo foi extinto, ainda não se sabe o que vai suceder. Mas o verbete é forte e dá nome até mesmo a uma disciplina de faculdade. Nesse caso, como ninguém sabe ao certo o que é Empreendedorismo, vê-se qualquer coisa que se imagina ter algo a ver. Quando estudei essa disciplina, o conteúdo era Marketing, palavra inglesa que, entre outras definições, quer dizer: comprando e vendendo no mercado.
A Língua Portuguesa tem mais de 300 mil verbetes e, mesmo assim, não são suficientes para expressar todo o sentimento dos lusófonos, daí a necessidade de sempre criar novas expressões. Outro problema é que as palavras, como qualquer outro ser vivo, também envelhecem. Não morrem, mas vão para o asilo, onde são esquecidas. Diz-se que caiu em desuso.
Com a chamada globalização, as palavras também viajam, invadem a seara alheia e fincam o pé onde não deviam. As palavras do idioma inglês são as mais atrevidas, uma espécie de sem língua. É possível que no mundo de hoje não haja nenhuma língua pura, já que todas influenciam e recebem influência. Embora no momento isso pareça mais intenso, a história da civilização está repleta de exemplos semelhantes.
Os gregos, êta povinho para inventar. Boa parte do nosso vocabulário teve origem na Grécia, uma contribuição titânica. O mesmo se pode dizer dos romanos, que impuseram o latim pela espada, embora respeitassem as culturas locais. Para eles, importava mais o pagamento de imposto a César. Aliás, naquele tempo, o grego era uma espécie do inglês de hoje.
Os dicionaristas, no entanto, são muito cautelosos quanto ao nascimento de palavras. Segundo dizem, é preciso ter cuidado com os modismos, que caem logo no esquecimento. Faz-se necessário ressaltar, porém, que a Língua Portuguesa, presente nos cinco continentes, tem um imponente museu na Estação da Luz, na capital paulista. Lá, pelo menos, as palavras batizadas permanecerão para o todo e sempre.
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