Prefeitura abre investigação para apurar troca de corpos em Divinópolis

Elian Ozéias
Um episódio constrangedor envolvendo a troca de corpos durante um velório chocou uma família e levou a Prefeitura de Divinópolis a abrir um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar as responsabilidades. O caso ocorreu no último sábado, 31, mas só foi divulgado oficialmente nesta segunda-feira, 2, após denúncia dos próprios familiares.
De acordo com relatos, os parentes perceberam que o corpo presente no caixão não era o de seu ente querido quando o velório já havia começado. O equívoco foi comunicado imediatamente ao Serviço Municipal do Luto (SML), vinculado à Secretaria Municipal de Operações e Serviços Urbanos (Semsur), que corrigiu o erro a tempo de permitir a continuidade da cerimônia de despedida.
O prefeito Gleidson Azevedo (Novo) determinou a abertura de uma investigação para esclarecer as circunstâncias do ocorrido. Em nota, a Administração afirmou que "todas as medidas cabíveis estão sendo adotadas" e reforçou o compromisso com a transparência e o respeito às famílias enlutadas.
Histórico de erros
Este não é o primeiro caso do tipo em Divinópolis. Em 2021, durante o pico da pandemia de Covid-19, uma troca de corpos no Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD) levou ao enterro equivocado de Júnia Máximo, de 55 anos, ex-assessora parlamentar, em Conceição do Pará. Seu corpo foi entregue à família errada e sepultado antes que seus parentes pudessem se despedir.
Na ocasião, o erro só foi descoberto quando o Serviço Municipal do Luto foi buscar o corpo no hospital e ele já havia sido levado. A família precisou ir até o cemitério de Santana do Prata, em Conceição do Pará, para identificar e transferir o corpo.
O caso gerou comoção e levou à aprovação de uma lei municipal em julho de 2021, proposta pelo ex-vereador Eduardo Print Jr. (PSDB) e o vereador Ney Burguer, PSB à época, que estabeleceu protocolos rígidos para a identificação de corpos, incluindo:
- Atestado de reconhecimento por um familiar ou pessoa autorizada antes do fechamento do caixão;
- Documento assinado por duas testemunhas;
- Identificação com foto e documento afixado na urna funerária.
Apesar da legislação, o novo caso indica que falhas persistem no sistema.
Outro caso em 2021
Familiares de uma idosa de 84 anos, que morreu por complicações também da covid-19, aguardavam o corpo que seria velado no salão, para este fim, da Igreja Nossa Senhora Aparecida, no horário de 7 às 10h, de numa quinta-feira.
Para surpresa de todos, ao abrirem o caixão, havia o corpo de um idoso, momento em que entraram em desespero. Imediatamente comunicaram o erro ao Serviço de Luto que providenciou a troca. Devido ao engano, o velório durou até às 11h e o corpo foi enterrado no cemitério do bairro Alvorada.
A idosa ficou internada por cerca de 15 dias no Hospital Santa Lúcia, conforme familiares, parte deles entubada.
Na época o Agora conversou com a direção administrativa do hospital, que explicou o que houve na unidade de saúde.
— A senhora morreu no início da tarde desta quarta-feira e, logo depois, a família foi avisada. Após todos os protocolos, houve o reconhecimento do corpo. Por volta das 18h30, o Serviço Municipal do Luto buscou o corpo da idosa com a devida identificação, incluindo documento de identificação — concluiu a direção no dia.
Ouviu também com exclusividade pessoas que estiveram no velório e alguns familiares. Abalados preferiram não detalhar o assunto.
Sobrecarga de trabalho
Em 2021 o Agora ouviu fontes do Serviço Municipal do Luto, que também preferiram não se identificar, quando relataram que os erros são consequência da sobrecarga de trabalho e da falta de treinamento adequado.
— Na verdade, atribuo a falta de atenção, sobrecarga de trabalho, mas principalmente à má gestão do setor, que vem sendo conduzido sem procedimentos padrão e sem treinamento que minimize esse tipo de erro — disse uma das fontes.
Busca por responsáveis
No caso do último fim de semana, a Prefeitura promete rigor na apuração e afirma que situações semelhantes não serão toleradas.
A Semsur informou que o processo administrativo já está em andamento e que medidas serão adotadas para evitar novos equívocos.
Nota da Prefeitura
— A Prefeitura de Divinópolis, por meio da Secretaria Municipal de Operações e Serviços Urbanos (Semsur), confirma que recebeu denúncia sobre troca de corpos em um velório realizado no município no dia 31 de maio. O prefeito Gleidson Azevedo determinou a abertura imediata de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar os fatos e responsabilidades. O município reafirma seu compromisso com a transparência e o respeito às famílias, garantindo que casos assim serão tratados com o máximo rigor — disse.
Falhas sistemáticas
Conforme especialista em gestão, ouvido pela reportagem, os repetidos erros no serviço funerário de Divinópolis revelam problemas estruturais que vão além de falhas pontuais. Prossegue afirmando que se em 2021 a justificativa foi a sobrecarga por mortes de Covid-19, o novo caso indica que medidas paliativas não foram suficientes.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
