Preocupações de Mãe

Olhe, gente, criar filhos hoje está muito difícil. Veja só: a Nininha é noiva do Zé Roberto, um rapaz de família boa, empregado, ganha bem, respeitador, só não marcou ainda o casamento, mas vai marcar. Eles namoram há um tempão, porém, ainda hoje, quando ele vai ao banheiro, faz xixi na beiradinha, para ninguém escutar o barulho. Tem seu carro, nunca inventou de dormir aqui em casa. Agora, de uma hora para outra, a Nininha se enrabichou por esse tal de Ricardão, cara ordinário, das calças caindo, desempregado, que não tem onde cair morto. O sujeito só tem tamanho e cara lambida. Quando a gente pensa que as coisas estão encaminhadas, que transcorrem na mais perfeita ordem, sem que a gente se dê conta, o mundo começa desabar. Ontem, aqui em casa, houve o maior sururu. O Antenor, aquele linguarudo, contou para o Zé Roberto, que durante o desfile de 1º de junho, a Nininha e o tal de Ricardão estavam iguais aos periquitos, beijando desavergonhadamente. Apesar da confusão, Zé Roberto está disposto a perdoar, porque ele gosta muito da Nininha. É por isso que eu falo, eu brigo, eu xingo, eu faço ver: Nininha, minha filha, cria juízo, não jogue seu futuro na privada, criatura! Essa menina está enganada, ela tem de casar é com o Zé Roberto. Ela está debaixo do balaio, não tem por onde fugir. Eu quero o melhor para a minha filha, e esse rapaz eu o escolheria para ser o meu próprio marido, se eu já não fosse casada e carregada de filhos. Ô vida triste, eu queria ter agora a idade da Nininha. Os jovens de hoje são uns cabeças-de-vento, têm tudo e não sabem aproveitar o cavalo arreado, pronto para a montaria.
Eu não estou entendendo a Nininha. Era uma menina boa, obediente, até caseira. Virou um inferno depois que conheceu esse tal de Ricardão. Às vezes, o noivo está trabalhando, ela aproveita para sair com as amigas, fica anoite toda fora de casa, não atende ao celular, eu fico louca. O pai dela deita e dorme, não está nem aí. Eu fico acordada, pensando no pior. Olhe, gente, eu não sei o que fazer, não sei que medida tomar. Diz um ditado popular que duro com duro não se faz bom muro, mas eu vou endurecer, porque macaca velha não cai de galho seco. Na adversidade que se conhecem os amigos, mas, até agora, amiga mesmo é só a comadre Gertrudes. Aquela mulher é uma santa.
A comadre me falou: “O sinal mais evidente da sabedoria é o estar
sempre de bom humor; muito xingatório pode atrapalhar, em vez de melhorar”. Eu até que tento ficar calma, mas não suporto a idéia de a Nininha perder esse rapaz, uma joia rara que não se acha na esquina, como o tal de Ricardão. Inclusive, a Neuzinha, filha do Totonho, morre por causa do Zé Roberto, e ele gosta é da Nininha! Às vezes, tenho vontade de concordar com o padre Tobias: “Presunção e água benta, cada um toma a porção que quer”.
Mas não concordo que a Nininha perca esse noivo. Valei-me, Santo Antônio!
Augusto Fidelis
augustofidelis1@gmail.com
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