Quando o conhecimento divide: saúde, ambiente e realidade

Embora a mecânica quântica tenha mostrado que o átomo pode ser dividido, seu nome, derivado do grego átomos, carrega a ideia de “indivisível”. Além do fascínio por fenômenos minuciosos, a tendência ocidental é decompor tudo em partes mínimas, buscando causas internas e ignorando as relações com o ambiente. Fracionar, atribuir funções e compreender o todo virou prática comum. Não é surpresa que a sociabilidade valorize independência, autonomia e individualidade; o termo indivíduo (do latim individuus) remete à ideia de indivisibilidade, ainda que ultrapassada.
Já as tradições orientais enfatizam a interdependência entre parte e todo. A filosofia chinesa, bem como o dualismo yin-yang, reconhecem que a interação entre elementos gera algo que não existe isoladamente, privilegiando interdependência, complementaridade e coletividade.
Essa diferença aparece na forma como explicamos o comportamento humano. O psicólogo social canadense-americano Lee Ross cunhou o conceito de “erro fundamental de atribuição causal”: tendemos a supervalorizar fatores internos e a subestimar as condições externas que moldam ações. Historicamente, porém, o olhar mudou ao longo dos séculos. Na medicina de Galeno, saúde era equilíbrio entre corpo e ambiente, incluindo estações do ano. No século XVIII, o paradigma anatomopatológico deslocou o foco para órgãos e tecidos, abrindo uma cascata de decomposições: células, organelas, moléculas, genes, até átomos. Hoje, a vida se traduz em dados e algoritmos. Paralelamente, diagramas de Florence Nightingale mostraram vínculos entre insalubridade e doença. Desde então, a cada descoberta, reformas são propostas, mas persiste o maior desafio: reformar o olhar.
Esse desafio ecoa na reflexividade de Anthony Giddens: toda nova informação pode exigir revisão de relações sociais e com a natureza. Precisamos criar antídotos contra os venenos que produzimos. O entendimento do ambiente humano está em transformação e expansão, mas a velocidade dessas mudanças nem sempre acompanha a necessidade de adaptação.
Agora enfrentamos, simultaneamente, os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde e os impactos da vida digital na saúde mental. Duas décadas de sociabilidade virtual ampliaram nossa noção de ambiente, tornando as fronteiras entre vida analógica e digital mais tênues. O problema é que nem sempre compartilhamos um chão comum: as redes digitais criam bolhas que reafirmam convicções e rechaçam o contraditório. Falar de “ambiente” ou “saúde” deixou de ser consenso para se tornar fonte de opinião.
Conforme Dan Kahan, jurista de Yale, a percepção de risco climático depende menos do conhecimento científico e mais de visões de mundo. Indivíduos com valores igualitários e comunitários tendem a ver maior gravidade no aquecimento; já os mais individualistas e hierárquicos tendem a subestimar o fenômeno. Curiosamente, mais informação pode reforçar crenças prévias, comprometendo o ideal iluminista de que o conhecimento conduz ao progresso. Seria desejável defender apenas o direito à nossa realidade — e ao nosso ambiente. Mas, por vezes, há o desejo intenso de transformar esse ambiente em política pública. Esse parece ser um meta-paradoxo: nunca tivemos tanto acesso à informação e tanto conhecimento sobre soluções coletivas, e ainda assim nunca estivemos tão divididos sobre o que sabemos.
Como sociedade, temos duas opções: reaprender a compartilhar o mesmo ambiente físico e perceptivo, ou aguardar que um destino comum, inevitável, nos una de alguma forma.
Thiago Mikael Silva
Graduado em psicologia (FCV-Sete Lagoas, 2014), mestre (2020) e doutor (2024) em Psicologia social pela UFMG. Professor no curso de Psicologia na UNA-Divinópolis e pós-doutorando no Instituto René Rachou — Fiocruz Minas
thiago.mikael@ulife.com.br
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