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Quando o corpo entra no projeto

Moda inclusiva amplia o olhar sobre o vestir e questiona metodologias para a criação das roupas

Por UNA · Colunista· 4 min de leitura
Quando o corpo entra no projeto

Em setembro, somos convidados a ouvir. O tema do Setembro Amarelo de 2026 — “Escutar é estar presente” — chama atenção para uma atitude simples, mas nem sempre praticada: estar verdadeiramente disponível para o outro, com atenção e sem julgamentos. Essa reflexão também pode alcançar a moda.

A moda sabe escutar. Pesquisa comportamentos, desejos e hábitos de compra. Identifica públicos, cria nichos e desenvolve produtos para diferentes perfis. Mas existe uma diferença entre conhecer um público e conhecer, de fato, os corpos que fazem parte dele.

Uma pessoa pode estar inserida no público-alvo de uma marca e, ainda assim, não encontrar uma roupa que vista seu corpo adequadamente. Pode não conseguir fechar um botão, manusear um zíper ou vestir uma peça sem ajuda. Pode encontrar sua numeração, mas descobrir que a modelagem não considera suas proporções.

Nesse ponto, a moda inclusiva ganha importância. Mais do que adaptar roupas, trata-se de repensar a maneira como o próprio projeto de moda é concebido.

Durante muito tempo, a indústria se apoiou na ideia de um corpo padrão. A partir dele, desenvolvem-se modelagens e tabelas de medidas. Os demais corpos aparecem como variações desse modelo, para os quais são criadas adaptações.

O design inclusivo propõe outra perspectiva: reconhecer desde o início que a diversidade corporal é uma característica da sociedade, e não uma exceção. Inclusão também é experiência de vestir.

Uma roupa inclusiva pode utilizar fechamentos magnéticos, velcros, zíperes reposicionados, etiquetas táteis e modelagens pensadas para diferentes movimentos.

Mas uma peça pode ser fácil de vestir e, ainda assim, não representar a identidade de quem a usa. Por isso, conforto, autonomia, funcionalidade e estética precisam ser pensados conjuntamente. Esse é um dos grandes desafios para designers e para a indústria: não basta representar a diversidade; é preciso projetar para ela.

Uma campanha pode apresentar corpos diversos e uma marca pode ampliar sua grade de tamanhos. Mas a inclusão precisa chegar ao produto: modelagem, materiais, fechamentos, ergonomia e experiência de vestir.

Antes de criar, é preciso escutar. Para desenvolver uma moda realmente inclusiva, não basta imaginar o que seria melhor para o outro. É preciso ouvi-lo. Perguntar. Observar. Testar. Isso significa convidar diferentes pessoas para participar do processo, compreender suas dificuldades, identificar barreiras e, principalmente, conhecer seus desejos. Projetar para alguém não deveria significar decidir por alguém. A escuta, nesse contexto, deixa de ser apenas uma metáfora: transforma-se em método de projeto. Diferentes experiências podem revelar problemas que dificilmente aparecem apenas nos dados de consumo.

Escutar é entender que uma pessoa não é apenas um número de manequim ou um segmento de mercado. Existe um corpo que veste, se movimenta, se expressa e constrói sua identidade por meio daquilo que usa. Uma moda para corpos reais.

Talvez a moda já tenha aprendido a escutar o consumidor enquanto público. O próximo passo é escutá-lo enquanto corpo.

Essa mudança interessa a todos. Nossos corpos mudam ao longo da vida, com a idade, alterações de medidas e experiências cotidianas. A diversidade corporal faz parte da experiência humana. Por isso, a moda inclusiva não deveria ser compreendida apenas como um nicho de mercado. Ela pode ser uma oportunidade de repensar o próprio ato de projetar roupas e questionar para quem e a partir de quais referências estamos criando.

Se setembro nos lembra que escutar é estar presente para o outro, podemos levar essa ideia também para aquilo que vestimos. Escutar, na moda, é reconhecer que cada corpo tem uma história, uma necessidade e uma maneira própria de existir.

E quando um corpo precisa se adaptar constantemente à roupa, talvez seja hota de pensar o inverso, a roupa que precise ser repensada.

Uma moda verdadeiramente inclusiva não pergunta apenas quem vai comprar. Pergunta quem vai vestir, como vai vestir e o que precisa para fazê-lo com conforto, autonomia e dignidade.

Incluir não é abrir uma exceção para alguns corpos. É compreender que não existe um único corpo capaz de representar todos nós.

Talvez, afinal, uma das formas mais concretas de estar presente para o outro seja fazer com que ele também tenha lugar naquilo que criamos. E, na moda, isso começa quando aprendemos a escutar  as diversas pessoas e seus corpos.

Glauciene de Oliveira (professora Glau) é designer de moda, mestre em Educação. Pós graduada em Artes visuais e Marketing. Atua como professora universitária há 20 anos.


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