Quase uma semana após início do tarifaço, economista avalia cenário

Lucas Maciel
Quase uma semana após a entrada em vigor do tarifaço norte-americano, que impôs uma tarifa de 50% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros, o Brasil ainda aguarda avanços concretos nas negociações com os Estados Unidos. A medida, anunciada pelo presidente Donald Trump, já provoca tensões diplomáticas, incertezas econômicas e uma reação crítica por parte do governo brasileiro e do setor produtivo.
Enquanto os impactos práticos começam a se desenhar, autoridades federais reforçam o tom de insatisfação com a condução da política externa americana. Para o governo, a decisão mistura interesses políticos e ideológicos com relações comerciais, o que agrava o cenário e dificulta acordos que minimizem os danos à economia nacional.
Diante da demora nas negociações, o governo federal também tem buscado acelerar a abertura de novos mercados internacionais, como forma de reduzir a dependência do mercado norte-americano.
Em Minas Gerais, e especialmente em Divinópolis, onde parte significativa da indústria é voltada à exportação de ferro-gusa e derivados, o cenário é de atenção redobrada. Especialista indica que empresas precisam explorar novas oportunidades de exportação em mercados emergentes.
Negociações travadas
Durante participação no seminário Esfera Infra, realizado no Recife no sábado 9, o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, criticou a condução das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos após o início do tarifaço.
Para ele, a postura do governo norte-americano ao impor a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros mistura interesses políticos e econômicos, agravando os efeitos negativos sobre o setor produtivo nacional.
— Defender isso é contraproducente com o Brasil porque emprego não é de direita nem de esquerda. O emprego é do povo brasileiro. Estamos prejudicando milhares de empresas por conta dessa taxação — afirmou o ministro.
A crítica do ministro está ligada à percepção de que a decisão do presidente Donald Trump teve motivações políticas, influenciada por pressões de grupos ideológicos radicais. Para Sílvio Costa Filho, essa interferência compromete as relações comerciais e prejudica especialmente o Brasil, cuja economia depende fortemente de setores como o agronegócio e a indústria siderúrgica.
Além das perdas econômicas, o ministro alertou para impactos na geração de empregos e na estabilidade de empresas exportadoras, principalmente em regiões mais expostas ao mercado norte-americano.
Novos mercados
A aposta, diante da demora nas negociações com os Estados Unidos e da instabilidade nas relações comerciais, agora é na abertura de novos mercados internacionais, como alternativa para manter o ritmo das exportações e preservar empregos em setores estratégicos da economia.
Durante o evento, Silvio Costa Filho, afirmou que, embora o tarifaço tenha efeitos negativos no curto prazo, também serviu como um sinal de alerta para o país acelerar o processo de diversificação comercial.
— Em pouco menos de dois anos e meio, o governo Lula abriu mais de 390 novos mercados. Eu olho essa decisão dos EUA como um momento de reflexão. Não gostaríamos que tivesse acontecido, mas já que aconteceu, o próprio setor produtivo vai acelerar o que já estava acontecendo ao abrir novos mercados com a Ásia, Europa e outros países — declarou.
Segundo o ministro, a decisão dos Estados Unidos, embora considerada equivocada, acabou por reforçar uma movimentação que já estava em curso, com o Brasil buscando consolidar parcerias com países da Ásia, da Europa e de regiões com maior abertura à importação de produtos industriais e agrícolas.
Cenário local
Ao Agora, o economista e diretor financeiro Leandro Maia avalia que a lentidão nas negociações entre Brasil e Estados Unidos, após o início do tarifaço, tem ampliado a insegurança entre empresários e investidores, especialmente em cidades com perfil exportador, como Divinópolis.
— Esta demora contribui para aumentar ainda mais as incertezas políticas e econômicas, prejudicando os planejamentos dos empresários e investidores — afirmou.
Segundo Maia, além de afetar diretamente a capacidade das empresas de manter contratos e operações voltadas à exportação, o cenário atual também pressiona o setor produtivo a buscar alternativas no mercado internacional. Ele considera acertada a posição do governo federal em acelerar a diversificação de destinos comerciais e vê espaço para que pequenas e médias empresas da região também avancem nesse movimento.
— A crítica feita pelo ministro sobre o impacto das tarifas no emprego é relevante. Empresas locais podem ser afetadas pela queda nas exportações, e a busca por mercados alternativos pode abrir novas oportunidades, inclusive para pequenas e médias empresas de Divinópolis que desejam internacionalizar — avaliou.
Entre os mercados com maior potencial, o economista cita países do Sudeste Asiático, como Indonésia, Vietnã e Malásia, que têm demanda crescente por metais e produtos farmacêuticos, além da Europa Oriental, que atualmente oferece incentivos à importação de insumos industriais e demonstra interesse em ampliar acordos comerciais com países latino-americanos.
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