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Augusto Ambrosio Fidelis

Reminiscências

Por Portal Agora

Hoje, resolvi sentar-me à soleira da porta da sala, da mesma forma que eu fazia na minha infância. Claro que a porta é outra, outra também é a casa, outros são os tempos, sobrecarregados de saudade. A dona Gertrudes falou o seguinte: quem perde tempo remoendo o passado é porque perdeu a perspectiva de futuro. Talvez sim, talvez não. Tem dia que a gente amanhece cheio de recordação, embora consciente de que o passado é apenas uma lembrança, que o futuro não existe e que o presente é agora, não amanhã.

Mas estou matutando sobre a vida de outrora, como tudo era difícil, embora houvesse mais sinceridade nas palavras e nos gestos das pessoas. O chão da casa era de terra batida, as paredes de adobe, porém, com telhado colonial. No canto da cozinha um pote de água fria saciava a sede de todos quantos chegavam. O bule de café ficava o dia todo na tampa da panela de feijão, sempre quentinho. Às vezes feito de garapa, às vezes de rapadura, ocasionalmente de açúcar. Com um pouco de sorte, o visitante deliciava-se também com um pedaço de broa de fubá assada na caçarola.

Naquele tempo, os dias passavam-se lentamente, porque a rotina assim determinava.  O dia começa é cedo, dizia minha mãe. Quando aproximava o período de frio, era preciso estocar lenha, para acender fogo no chão; se aproximava o período de chuvas, era preciso estocar lenha para se ter como cozinhar; era preciso encher o pote, aguar as plantas, dar comidas às galinhas, aos cachorros, aos gatos e aos passarinhos. Não tínhamos rádio, então cantávamos as modas que os outros cantavam e a gente aprendia.

Em maio, começavam as novenas, época de andança da imagem de Nossa Senhora Aparecida nas casas. As mulheres recitavam o terço e os homens ficavam no terreiro, em volta da fogueira contando causos. Porém, lá em casa,  fogueira somente antes das orações. Na hora da Salve Rainha, quem não tirasse o chapéu ficava marcado; eu olhava com cara feia mesmo.

Deve ser por isso que ninguém compareceu para rezar comigo o terço, quando fiz 15 anos. Minha mãe não aprovou, mesmo assim amassei um bolo de fubá com cinco ovos, um exagero para a época. Depois de assado, bati as claras em neve com açúcar e o cobri. Acrescentei ainda algumas rosas brancas, ficou lindo. Preparei o altar com todos os santos do oratório de mamãe: São Sebastião, Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio e Jesus Crucificado. Tudo muito bem enfeitado. Convidei a vizinhança para o evento, que eu considerava o maior daquele ano. Não apareceu uma só alma. Chorei copiosamente. Hoje, estou aqui pensando nesses acontecimentos, remoendo o passado. A gente tem umas coisas tão engraçadas! Será por que isso acontece?!

 

augustofidelis1@gmail.com

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