Tarifaço de Trump pode abrir novos mercados para o Brasil, diz especialista

Jorge Guimarães
Apesar das preocupações iniciais com a nova tabela de tarifas sobre produtos divulgada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a reação de empresários, entidades representativas e da área econômica brasileira foi de relativo alívio. A avaliação predominante é a de que poderia ter sido pior, especialmente diante do contexto global em que outras grandes economias, como China, União Europeia e Japão, enfrentaram tarifas significativamente mais altas para continuar acessando o mercado americano. A da China subiu ainda mais ontem, numa forma de retaliação ao país asiático que reclamou da anterior. Chegou a 125%.
Especialistas ouvidos consideram que o percentual imposto ao Brasil demonstra um certo equilíbrio por parte dos EUA, evitando medidas mais duras. Ainda assim, a cobrança de tarifas gera preocupação quanto à competitividade de produtos brasileiros, que agora terão de disputar espaço com preços mais altos em solo norte-americano.
Menos afetado
E dentro do novo contexto para o qual a economia mundial caminha, o Brasil se posiciona como um dos países menos afetados pela recente decisão do governo americano de impor novas tarifas a produtos estrangeiros. A prática, que não é novidade no cenário internacional, já foi amplamente utilizada em disputas comerciais ao longo da história, especialmente entre grandes potências.
De acordo com o economista Lazaro Ribeiro, a decisão de Washington reflete a estratégia protecionista adotada pela Casa Branca desde o início do governo Trump, que busca favorecer a produção interna e reduzir o déficit comercial com países estrangeiros.
— Para o Brasil, o desafio daqui em diante será manter o diálogo diplomático e buscar alternativas para preservar seu acesso a um dos mercados mais relevantes do mundo. E mesmo diante de uma disputa comercial, não se trata de uma guerra comercial e sim um realinhamento de mercado, visando sobretudo, proteger o mercado interno, neste caso o mercado americano — explica.
E são nestes momentos que surgem as barreiras comerciais, a tarifação, exatamente para proteger os produtores locais.
— Isso sempre vai acontecer nas economias do mundo inteiro e não tem nada de errado nessa prática. Afinal, o sistema econômico predominante mundialmente é o sistema capitalista. Neste sistema, leva-se em conta a livre concorrência, exigindo uma maior negociação entre as partes — pontua Ribeiro.
Agro
E no quesito negociar, a recente escalada na guerra comercial entre Estados Unidos e China apresenta uma oportunidade estratégica para o Brasil fortalecer sua posição no comércio internacional, conforme especialistas. Com a imposição de tarifas adicionais de 104% sobre produtos norte-americanos pela China, o Brasil pode aumentar suas exportações para o mercado chinês, especialmente no setor agrícola.
Historicamente, o Brasil tem se beneficiado de disputas comerciais entre grandes potências. Durante conflitos anteriores, as exportações brasileiras para a China aumentaram significativamente, consolidando o país como um fornecedor confiável de commodities agrícolas. Atualmente, o país já é o principal destino das exportações brasileiras de soja, representando 73% das vendas em 2023.
Além da soja, há potencial para expandir as exportações de carne suína, bovina e de frango. Analistas preveem um aumento na demanda chinesa por carnes brasileiras, o que pode impulsionar as exportações nacionais. No entanto, essa crescente demanda externa pode pressionar os preços internos dos alimentos, contribuindo para a inflação doméstica.
— Para aproveitar plenamente essas oportunidades, o Brasil deve adotar uma abordagem estratégica que equilibre o crescimento das exportações com a estabilidade dos preços internos. Fortalecer as relações diplomáticas com a China e diversificar a oferta de produtos exportados são passos essenciais para consolidar a posição do Brasil no novo cenário do comércio internacional — finaliza o economista.
Diversificação
As tarifas impostas pelos EUA refletem uma estratégia destinada a fortalecer a indústria doméstica americana. No entanto, essas medidas podem desencadear retaliações de parceiros comerciais e aumentar as tensões no comércio internacional.
— Para o Brasil, é essencial buscar diversificação de mercados e fortalecer relações comerciais com outros países para mitigar os impactos dessas tarifas. Além disso, a continuidade do diálogo diplomático com os EUA será essencial para resolver disputas e buscar soluções que minimizem os danos ao comércio bilateral — analisa o economista e coordenador do Núcleo de Pesquisas Econômicas (Nepes), Wagner Almeida.
Positivas
Recentemente o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, avaliou como “positivas” para o Brasil as tarifas americanas. Segundo Roscoe, as medidas podem abrir novas oportunidades para os produtos brasileiros no mercado internacional.
O Agora também ouviu o presidente da Fiemg – Regional Centro-Oeste, Eduardo Soares, para comentar o assunto e dar sua opinião sobre a fala do presidente estadual do órgão.
Soares afirmou que compartilha da análise feita por Roscoe, que considera as tarifas como uma possível oportunidade para o Brasil ampliar sua presença no mercado internacional.
— Essa movimentação global pode, sim, favorecer o Brasil. Temos condições de ocupar os espaços deixados por países impactados pelas tarifas e conquistar novos mercados — declarou.
Ainda segundo Eduardo Soares, o momento exige atenção estratégica do setor produtivo nacional. Ele acredita que, em meio à disputa comercial entre Estados Unidos e China, o Brasil pode se beneficiar vendendo produtos para ambos os mercados.
— É uma possibilidade real. Enquanto essas duas potências disputam espaço, nós temos a chance de nos consolidar como alternativa confiável. Isso pode fortalecer significativamente nossas exportações — avaliou.
Soares lembra que a Regional Centro-Oeste seguirá atenta aos desdobramentos do comércio internacional, buscando orientar os empresários locais e da região sobre os impactos e as chances reais de expansão em novos mercados — finalizou.
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