“Trump nuke Brasil”

Crepúsculo da lei - Ano VIII – CCCLXXIII
Mais uma humilhação contra a nação brasileira. Em uma manifestação (?) no último domingo, 18, foi usada a imagem de um míssil inflável na Avenida Paulista, acompanhada da mensagem – Trump Nuke Brazil – dirigida a Donald Trump para que ele bombardeie o Brasil, expondo, mais uma vez, a falta de limites do antipatriotismo bolsonarista em mais uma grotesca contradição política, a qual não pode ser reduzida a uma provocação popular de ignorantes.
O episódio vergonhoso permite examinar a profunda contradição dos “patriotas de araque” pedindo (pasme-se!) para transformar o próprio país em alvo de destruição por uma potência estrangeira — como afirmar a defesa da nação e, simultaneamente, representar seu bombardeio como solução política, inclusive sem pensar na possibilidade de a própria família ser alvejada?
Quando a derrota de um adversário passa a ser imaginada por meio da destruição do território nacional, a retórica patriótica entra em conflito com o próprio princípio da soberania que afirma defender. Ora, o patriotismo não se mede pela quantidade de bandeiras empunhadas, ou pelas cores utilizadas, ou pela intensidade dos discursos contra os adversários. Seu conteúdo político mais elementar é o reconhecimento de que o país e a nação brasileira não pertencem a um partido, a uma família política ou a um grupo ideológico.
O Brasil não é propriedade estadunidense, tampouco de quem deseja entregá-lo de bandeja. Este país maravilhoso é o espaço comum de milhões de pessoas, inclusive daqueles que não compartilham as convicções dos manifestantes.
Por isso, pedir a uma potência estrangeira que ataque o próprio país ultrapassa os limites da oposição política convencional. Nesse sentido, é legítimo caracterizar o gesto como uma manifestação covarde de antinacionalismo e uma negação prática de qualquer solidariedade patriótica. Seu conteúdo revela um desprezo simbólico pela soberania brasileira, ainda que não seja possível, a partir de um episódio isolado, determinar as convicções íntimas de todos os envolvidos.
A questão, portanto, não é exigir submissão ao governo brasileiro, muito menos impedir críticas radicais às instituições. Uma sociedade livre depende da possibilidade de contestar governantes, denunciar abusos e lutar pela transformação do Estado. O que não se pode fazer é confundir a oposição a um governo com a autorização simbólica para que uma potência estrangeira destrua o país onde vivem também os próprios opositores.
Uma pátria não deixa de ser pátria quando seu governo desagrada a uma parcela da população. Tampouco se torna legítimo desejar sua destruição para impedir que adversários políticos permaneçam no poder. Qualquer patriota verdadeiro sabe disso.
O episódio, portanto, deixa uma conclusão e uma pergunta. A conclusão é que esquerda e direita devem se unir contra a falácia bolsonarista. E a pergunta incontornável é para os mesmos bolsonaristas ligados ao tal episódio: se a vitória de um grupo vale mais do que a soberania do país, o que exatamente esse grupo pretende defender quando afirma agir em nome da pátria?
Leia também
Mais recentes
Do nosso arquivo
Veja tudo o que publicamos em outubro de 2026
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…








