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Domingos Sávio Calixto

Sobre o mal e sobre o bolsonarismo

CREPÚSCULO DA LEI – ANO VIII

Por Domingos Sávio Calixto · Colunista· 3 min de leitura
Sobre o mal e sobre o bolsonarismo

O “mal” aqui não será compreendido como resultado de uma vontade deliberadamente perversa, mas como consequência da desistência humana de pensar. Não se trata da ausência de inteligência ou da incapacidade de elaborar raciocínios complexos, mas de algo bem mais grave: a incapacidade ou a recusa de submeter a própria consciência ao exame crítico da realidade, especialmente quando essa realidade está organizada pela dominação de outros seres humanos.

Nesse sentido, abre-se uma equivalência entre Fascismo, Nazismo, Sionismo e Bolsonarismo em face do ponto comum que os compreende: a ausência de pensamento na produção do mal nessas ideologias de violência. Nelas, o indivíduo deixa de questionar as estruturas nas quais está inserido para tornar-se instrumento de práticas profundamente violentas, sem necessariamente experimentar a si mesmo como alguém violento. Decorre daí que a crueldade passa a ser administrada como procedimento; a discriminação, como tradição; a exclusão, como necessidade econômica; e a violência, como mecanismo de preservação da ordem.

Nelas, o mal deixa de exigir uma consciência explicitamente perversa: basta que encontre sujeitos dispostos a obedecer, reproduzir e justificar aquilo que não se permitem questionar. O mal, consolidado e demonstrado nas práticas do Bolsonarismo, parte da construção de seu inimigo imaginário, um “totem” sobre o qual será canalizado todo o seu “tabu” odioso, com o objetivo claro de aniquilá-lo. A derrota nas últimas eleições insuflou ainda mais esse ódio, alimentando ainda mais as travas do raciocínio e do pensamento, praticamente isolando a “ilha” da racionalidade em relação às condutas destrutivas do “inimigo”, ainda que tal inimigo não exista ou tenha sido “plantado” no terreno do pensamento ausente.

Essa questão se aproxima inequivocamente dos estudos de Hannah Arendt, especialmente de sua reflexão sobre a banalidade do mal, naquilo que dispõe sobre a inexistência da capacidade de pensar criticamente sobre os próprios atos no interior de estruturas burocráticas e totalitárias. Nesse sentido, desprovido do pensamento, o Bolsonarismo mostra-se capaz de destruir a imagem de Deus a pretexto de cultuá-lo; é capaz de entregar a própria Pátria a governos estrangeiros a pretexto de defendê-la; é capaz de agredir e matar irmãos sob o pretexto de conservar a “família tradicional” e, depois de tudo, entregar-se aos bordéis, às “surubas” e às orgias sexuais, ou mesmo gastar 5 bilhões com apostas, fruto do roubo de dinheiro público, para depois defender valores morais. 

Portanto, há uma consequência política nessa reflexão sobre o mal: sociedades profundamente injustas dependem não só de indivíduos perversos para continuar funcionando, mas também de indivíduos que normalizam a injustiça, que transformam a violência em rotina e que confundem a preservação da ordem com a preservação da justiça. Assim, o mal pode adquirir uma aparência respeitável, vestir a linguagem do direito, da moralidade, da segurança e da eficiência administrativa. 

Pensar, nesse contexto, torna-se, então, um ato de resistência. Não porque o pensamento, isoladamente, seja capaz de eliminar a violência, mas porque impede que a violência conquiste definitivamente o estatuto de normalidade. Assim, a consciência é o primeiro território da emancipação, e aqueles que pensam sabem: não adianta fugir alegando ditadura; o Bolsonarismo foge mesmo é da Democracia! 


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