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Cláudio Guadalupe

20 DE OUTUBRO: DIA DO POETA, COM DUAS HOMENAGENS!

Por Bruno
20 DE OUTUBRO: DIA DO POETA, COM DUAS HOMENAGENS!

CLÁUDIO GUADALUPE

Dia do Poeta, para quê? Para refletirmos sobre a poesia, valorizarmos os nossos autores e lermos, lermos, lermos e escrevermos depois, com nossos sentimentos! E hoje, trago dois autores nacionais de peso: João Cabral de Mello Neto (Recife, 9 de janeiro de 1920 – Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999) e Vinícius de Moraes  (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 – Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980), para comemorarmos o nosso dia!

Pagando a dívida com meus leitores, primeiro homenageio o poeta da construção e de uma sensibilidade racional, João Cabral de Mello Neto. Em entrevista com Rinaldo Gama, da publicação CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA (Instituto Moreira Salles, março de 1996), o poeta vaticina:

“Para mim, a poesia é uma construção, como uma casa. Isso aprendi com Le Corbussier (arquiteto e teórico do modernismo arquitetônico). A poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída, planejada – de fora para dentro...Eu só entendo o poético neste sentido” (IMS, pp.21)

Com uma longa carreira diplomática em vários países, sob influência de Carlos Drummond de Andrade, tornou-se um poeta de cunho social, recuperando as tradições populares do nordeste e contribuindo, para a resistência ao franquismo na Espanha, nas décadas de 1940/1950. 

É na unidade entre a ideia de uma poesia seca, com elaboração racional das palavras e a postura política, que o poeta publicará sua maior obra literária: Vida e Morte Severina (1955), que se tornou um sucesso da dramaturgia brasileira (apesar de sido encenada, apenas em 1965, com 

músicas de Chico Buarque, pelo TUCA), além das várias versões cinematográficas da peça,  a publicação de revistas de HQ e animações. Por isto, iremos aqui, apresentar um fragmento desse emocionante texto sobre o homem nordestino!

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Essa cova em que estás, com palmos medida,  a cota menor que tiraste em vida.

 — É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe deste latifúndio. 

— Não é cova grande.  é cova medida, é a terra que querias ver dividida.

 — É uma cova grande para teu pouco defunto,  mas estarás mais ancho que estavas no mundo.

 — É uma cova grande para teu defunto parco, porém mais que no mundo te sentirás largo. 

— É uma cova grande para tua carne pouca, mas a terra dada não se abre a boca. 

— Viverás, e para sempre na terra que aqui aforas:  e terás enfim tua roça. 

O outro autor a se comorar no Dia do Poeta, é nada mais, nada menos que o nosso poeta mais lírico do modernismo brasileiro, que aqui já o apresentei. Vinícius de Moraes, diplomata, poeta,  dramaturgo, compositor, letrista da Bossa Nova e da MPB, parceiro de vários músicos, como Tom Jobim, Toquinho, Edu Lobo e outros astros da nossa música. E, como João Cabral de Mello Neto, o poetinha desenvolveu também uma poética social. Hoje, apresentaremos aqui, um fragmento do grande poema OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO (escrito em 1959):

Pois além do que sabia
Exercer a profissão 
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução...

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