100 ANOS DOS FRANSCICANOS EM DIVINÓPOLIS E A POESIA

CLÁUDIO GUADALUPE
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
Divinópolis comemorou agora a presença e a influência dos Franciscanos, desde 1924, na vida cultural, religiosa e social da cidade. Durante a semana passada, de 03/11 a 10/11/2024, nas dependências do Conselho Franciscano de Formação e Cultura e na Igreja Santo Antônio, houve uma série de eventos, pelos 100 anos da Ordem.
Ocorreram duas celebrações eucarísticas, exposições de fotos de Fernando Laudares sobre as obras do Frei Raul Ribeiro de Melo (esculturas em madeira); palestras, do Frei Celso Márcio Teixeira (800 anos das chagas de São Francisco), da Dra. Sílvia Contaldo (Mama Mia, Prevenir é preciso), da Maria Cecília Guimarães (Os Franciscanos e a música em Divinópolis) e a apresentação da pesquisa da Dra. Flávia Lemos Mota de Azevedo, sobre o “legado dos Franciscanos na arte, cultura e intelectualidade de Divinópolis”.
Houve também belos momentos culturais, como as apresentações de Tia Elza e Ronan Sanches; projeção do teaser do filme “Alma de Músico”, do cineasta Diego Lara; Orquestra de Violões da Escola Municipal de Música Ivan Silva; declamação do poeta Osvaldo de André (Alberto Caeiro); apresentação musical do Opus Quinteto e no domingo, fechando a programação, a mostra RAÍZES – Encontro de Saberes Tradicionais e a Missa Negra, no Santuário Santo Antônio.
Dizer sobre a presença dos Franciscanos em Divinópolis exige de nós a referência ao religioso São Francisco de Assis (1182-1226), que de forma revolucionária, passou a viver o evangelho, deixando toda a riqueza de sua família, constituindo a Fraternidade dos Irmãos Menores, passando assim a ter uma vida simples, em defesa dos animais, pregando a paz, o amor, a caridade e os cuidados às pessoas simples, em Assis (Itália). Quando faleceu, foi então canonizado pelo Papa Gregório IX, tornando-se padroeiro dos animais.
E nos ritos da Igreja Católica, há a Oração de São Francisco, uma das canções mais belas da Igreja. Leiamos parte da oração.
Senhor,
Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade (...)
A vida e o exemplo de São Francisco foi tema também de alguns belos poemas, como veremos em Florbela Espanca, principal poeta portuguesa, ligada aos temas femininos e amorosos, do início do século XX. Ela escreveu o belo soneto In Memorian.
IN MEMORIAM
Florbela Espanca
Na cidade de Assis, "il Poverello"
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o Sol, a Terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,
Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! - E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!
"Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água...
" Ah! Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela e mar de mágoa
Batida por furiosos vendavais!
- Eu fui na vida a irmã de um só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!
Outro poeta que se refere ao São Francisco foi o primeiro Carlos Drummond de Andrade, no belo poema “São Francisco de Assis”, sobre a Igreja em Ouro Preto (MG).
Senhor, não mereço isto.
Não creio em vós para vos amar.
Trouxestes-me a São Francisco
e me fazeis vosso escravo.
Não entrarei, senhor, no templo,
seu frontispício me basta.
Vossas flores e querubins
são matéria de muito amar.
Dai-me, senhor, a só beleza
destes ornatos. E não a alma.
Pressente-se dor de homem,
paralela à das cinco chagas.
Mas entro e, senhor, me perco
na rósea nave triunfal.
Por que tanto baixar o céu?
por que esta nova cilada?
Senhor, os púlpitos mudos
entretanto me sorriem.
Mais que vossa igreja, esta
sabe a voz de me embalar.
Perdão, senhor, por não amar-vos.
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