QUEM ESQUECEU JORGE DE LIMA, O POETA DO BRASIL NEGRO?

CLÁUDIO GUADALUPE
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
A elite literária, parte da nossa elite, impõe cânones, os chamados livros clássicos, e deseja apagar os textos que são diversos de seu padrão de beleza. Assim, um Catulo da Paixão Cearense, na poesia popular; um Leminski, entre os poetas marginais; um Thiago de Mello, entre os poetas de cunho social (como Moacyr Félix, Félix de Athayde, Adão Ventura, Miró, Pedro Tierra, Sérgio Vaz...) ou do forte movimento literário das mulheres pretas e do LGTBQUIA+ (Mel Duarte, Bell Puã, Luiza Romão,Ryane Leão), são preteridos pelas editoras e pela mídia.
Este preâmbulo é para reescrever sobre a poesia negra no Brasil, e o faço, a partir de versos meus:
15 Novembro: Res Publica (branca)
Resta apenas o ódio
Resta apenas a alienação
Resta apenas o pódio
Para quem foi primeiro
a fazer exploração
20 Novembro Res Publica (negra)
Resta apenas o mito
Resta apenas a sangria
Resta apenas o fraterno
grito explosivo de todos
ex- escravos na poesia
A Poesia Negra é um forte movimento literário no mundo e no Brasil. Mas por que não é reconhecida? Por que, o seu maior poeta, Jorge de Lima (23/04/1893-15/11/1953), fica tão esquecido?
O crítico literário Mário Faustino, afirmou: “Jorge de Lima (é) o maior, o mais alto, o mais vasto, o mais importante, o mais original dos poetas brasileiros de todos os tempos”. Minha tese: o nosso poeta pôs o dedo na ferida da nação brasileira - o rastro ainda contínuo do escravismo na sociedade e a presença da classe popular, que mesmo excluída, se refaz em memórias.
O poeta foi mudando, de uma lírica parnasiana para uma
poesia ligada ao
povo brasileiro, suas
tradições e sua
história. Comece-
mos pelo primeiro
poema que lhe abriu
as portas.
O ACENDEDOR DE LAMPIÕES
Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!
Já se enunciava o poeta de canções com forte presença das gentes simples, excluídas e doloridas. Ele cultivou também, ao longo de sua carreira, a poesia com fundo cristão (nos livros Tempo e Eternidade, em 1935 e Túnica Inconsútil, em 1938), e se firmou entre os primeiros poetas negros, com os livros Novos Poemas (1929) e Poemas Negros (1947), para enfim, chegar ao seu ápice, com a epopeia biográfica “Invenção de Orfeu” (1952).
Vamos ler do livro Novos Poemas, parte do seu texto mais conhecido da temática negra.
ESSA NEGRA FULÔ
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
(...)
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