Ler muita poesia e se encontrar - o caso do poeta Ivan Junqueira

No ofício de se tornar poeta, ler poesia é por demais fundamental. Encontrar e reconhecer-se nos poetas, pois fazer poesia, no mundo atual, é preciso arguir o verso em várias direções. E a vida e a morte, são o centro da memória e criação dos poetas! E o carioca Ivan Junqueira justamente me tocou por esta tarefa: desafiar a morte na urgência da vida
O poeta Ivan Junqueira
é reconhecido pelos
críticos literários como um
poeta da geração dos
anos 1960. Ítalo Moriconi
o coloca entre os moder-
nistas de discursos verti-
ginosos, junto aos poetas Adélia Prado, Roberto Piva, Ferreira Gullar, Olga Savary e tantos outros, nos inflamáveis anos 1960/1970 até a poesia contemporânea!
O crítico e poeta Antônio Carlos Sechin, ao analisar um de seus livros, “A Sagração dos Ossos”, reconhece nele um poeta com muita profundidade e maturidade, com “um domínio rítmico, melódico e imagístico raras vezes atingido na poesia brasileira de hoje”. Para Ivan Junqueira, arte poética é para “deixar seu testemunho de exato exaspero”, frente ao caos moderno!
Com uma bibliografia extensa (mais de 40 livros, com premiações) em poesia, antologias poéticas, ensaios e traduções de grandes poetas internacionais (Eliot, Charles Baudelaire, Dylan Thomas), Ivan Junqueira deixa a sensação de quanto os poetas são devedores de poetas antecessores e como a maestria, ao trabalhar diuturnamente os versos, as metáforas, o ritmo, a musicalidade, as imagens poéticas, pode dar a concisão da escrita e do pensar aos grandes poetas!
Dos temas mais tratados pelo poeta está a morte, considerada como perda, desamparo frente ao mundo, a orfandade, mas ao mesmo tempo, como arte, a esperança contra o caos.
EIS QUE ENVELHECES (fragmento)
Célula a célula,
vértebra a vértebra,
de ti o espectro,
eis que envelheces:
não mais o aéreo
passo de Pégaso,
nem as hipérboles
da áurea quimera,
mas só o inverno
da áspera pele
que trinca e engelha
como a de um réptil,
ou as exéquias,
sem círio ou prece,
do ralo esperma
que nada gera...
Outro tema recorrente à Ivan Junqueira é a questão da Poética, do criar e elaborar o discurso poético. Vejamos isso abaixo.
POEMA
Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?
Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?
Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que o algema?
SOTÃO (fragmentos)
De tudo há um pouco no sótão:
bonecas, fórmulas, fotos,
certidões, velhas apólices,
vapores, dracmas, sarcófagos,
indecifráveis hieróglifos,
frascos de ópio, trechos de óperas,
camafeus fantasmagóricos,
miasmas, atestados de óbitos.
Do pai, do pôquer e a aposta;
da mãe, o esplendor estoico;
de uma irmã, o infausto pólipo;
da outra, a loucura e a cólera.
E dos demais, os que sobram
a sombra exígua e disforme
que se enrosca aos tíbios ossos
de uma árvore genealógica.
...
De tudo há um pouco no sótão
mas nada que ali se possa
comparar à imagem órfã
de quem de si se fez hóspede
e exilou-se em sua órbita.
Nela, mesmo que se lhe olhe,
não se vê senão o invólucro
de um sopro que se evapora.
TRISTEZA
Esta noite eu durmo de tristeza.
(O sono que eu tinha morreu ontem
queimado pelo fogo de meu bem.)
O que há em mim é só tristeza,
uma tristeza úmida, que se infiltra
pelas paredes de meu corpo
e depois fica pingando devagar
como lágrima de olho escondido.
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