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Cláudio Guadalupe

Ler muita poesia e se encontrar - o caso do poeta Ivan Junqueira

Por Redação Jornal Agora · Redação· 3 min de leitura
Ler muita poesia e se encontrar - o caso do poeta Ivan Junqueira

No ofício de se tornar poeta, ler poesia é por demais fundamental. Encontrar e reconhecer-se nos poetas, pois fazer poesia, no mundo atual, é preciso arguir o verso em várias direções. E a vida e a morte, são o centro da memória e criação dos poetas! E o carioca Ivan Junqueira justamente me tocou por esta tarefa: desafiar a morte na urgência da vida


O poeta Ivan Junqueira 

é reconhecido pelos 

críticos literários como um                 

poeta da geração dos 

anos 1960. Ítalo Moriconi                     

o coloca entre os moder-

nistas de discursos verti-

ginosos, junto aos poetas Adélia Prado, Roberto Piva, Ferreira Gullar, Olga Savary e tantos outros, nos inflamáveis anos 1960/1970 até a poesia contemporânea!

O crítico e poeta Antônio Carlos Sechin, ao analisar um de seus livros, “A Sagração dos Ossos”, reconhece nele um poeta com muita profundidade e maturidade, com “um domínio rítmico, melódico e imagístico raras vezes atingido na poesia brasileira de hoje”. Para Ivan Junqueira, arte poética é para “deixar seu testemunho de exato exaspero”, frente ao caos moderno!

Com uma bibliografia extensa (mais de 40 livros, com premiações) em poesia, antologias poéticas, ensaios e traduções de grandes poetas internacionais (Eliot, Charles Baudelaire, Dylan Thomas), Ivan Junqueira deixa a sensação de quanto os poetas são devedores de poetas antecessores e como a maestria, ao trabalhar diuturnamente os versos, as metáforas, o ritmo, a musicalidade, as imagens poéticas, pode dar a concisão da escrita e do pensar aos grandes poetas!                                         

Dos temas mais tratados pelo poeta está a morte, considerada como perda, desamparo frente ao mundo, a orfandade, mas ao mesmo tempo, como arte, a esperança contra o caos

EIS QUE ENVELHECES (fragmento)

Célula a célula,

vértebra a vértebra,

de ti o espectro,

eis que envelheces:


não mais o aéreo

passo de Pégaso,

nem as hipérboles

da áurea quimera,

mas só o inverno

da áspera pele

que trinca e engelha

como a de um réptil,

ou as exéquias,

sem círio ou prece,

do ralo esperma

que nada gera...

Outro tema recorrente à Ivan Junqueira é a questão da Poética, do criar e elaborar o discurso poético. Vejamos isso abaixo.

POEMA

Que será o poema,

essa estranha trama

de penumbra e flama

que a boca blasfema?

Que será, se há lama

no que escreve a pena

ou lhe aflora à cena

o excesso de um drama?

Que será o poema:

uma voz que clama?

Uma luz que emana?

Ou a dor que o algema?

SOTÃO (fragmentos)

De tudo há um pouco no sótão:

bonecas, fórmulas, fotos,

certidões, velhas apólices,

vapores, dracmas, sarcófagos, 

indecifráveis hieróglifos,

frascos de ópio, trechos de óperas,

camafeus fantasmagóricos,

miasmas, atestados de óbitos.

Do pai, do pôquer e a aposta;

da mãe, o esplendor estoico;

de uma irmã, o infausto pólipo;

da outra, a loucura e a cólera.

E dos demais, os que sobram

a sombra exígua e disforme

que se enrosca aos tíbios ossos

de uma árvore genealógica.

...

De tudo há um pouco no sótão

mas nada que ali se possa

comparar à imagem órfã

de quem de si se fez hóspede

e exilou-se em sua órbita.

Nela, mesmo que se lhe olhe,

não se vê senão o invólucro

de um sopro que se evapora.

TRISTEZA

Esta noite eu durmo de tristeza.

(O sono que eu tinha morreu ontem

queimado pelo fogo de meu bem.)

O que há em mim é só tristeza,

uma tristeza úmida, que se infiltra

pelas paredes de meu corpo

e depois fica pingando devagar

como lágrima de olho escondido.


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